sábado, 19 de janeiro de 2013

[Novel] No. 6 Volume 3 Capítulo 1

No.6 3 

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(Parte A)

Capítulo 1: As coisas bonitas...

Distante, e zomba do tempo com o show mais estranho:
O falso rosto deve esconder o que o falso coração tem conhecimento

- Macbeth Ato I Cena VII [1]

O céu estava azul e brilhante. Os raios do sol, ao se aproximar do meio-dia, estavam suaves e quentes. Era uma tarde de clima temperado que fazia a frigidez de alguns dias atrás parecer um sonho.

Shion levantou o rosto e apertou seus olhos quando olhou para o céu azul.

Ele pensou que estava lindo.

O céu estava lindo. A brancura ofuscante da ruína desintegrada quando refletia a luz do sol era linda. A bolha de sabão estranha que flutuava como que por magia era lindo. O brilho do pêlo de um cachorro recém-lavado era lindo.

Todas as pequenas coisas que o cercava eram lindas. Uma bolha solitária flutuava de novo e deslizava na brisa suave.

"Ei, para de dar bobeira," a voz de Inukashi o chamou. "Ainda há toneladas de cães sobrando. Fique se distraindo assim a cada minuto, e o sol vai se pôr antes que você chegue na metade do serviço."

Como se de acordo com a reprimenda de Inukashi, um grande cão branco coberto de espuma deu um rosnado baixo.

"Opa, me desculpe."

Shion enfiou as mãos de volta na água de sabão e lavou o cão com as pontas dos dedos. O cão, evidentemente, achou muito agradável, seus olhos estavam fechados e sua boca pendeu semiaberta. Hoje era só a segundo vez de Shion em seu trabalho de lavagem de cães, mas ele já tinha aprendido que os cães tinham muitas expressões faciais diferentes. Eles também variavam em personalidade e tendência: alguns eram preguiçosos, outros diligentes; alguns eram tensos, outros descontraídos, poderiam ser calmos, impacientes, indisciplinados – tudo isso era novo para ele.

O cão branco que ele estava lavando agora era uma fêmea muito velha. Ela era gentil e inteligente, e lembrou-se da velha sábia que muitas vezes aparecia em contos.

"Shion, você está gastando muito tempo em cada cão. Quanto tempo você leva para lavar apenas um?" Inukashi, com seu longo cabelo amarrado na parte de trás e espumas de sabão em seu nariz, fez uma careta para ele.

"Você aluga esses cães para servir de cobertores, não é?" Shion respondeu. "Eles precisam ser limpos adequadamente, então."

"Uma lavagem rápida é suficiente. Os clientes são todos como vagueadores sujos de qualquer maneira, os bastardos."

Em um edifício com a maior parte reduzida a escombros, havia uma parte que ainda retinha um pouco uma aparência do hotel que costumava ser. Inukashi alugava o espaço como alojamento durante a noite para quem não tinha nenhum lugar para ficar. Ele alugava os cachorros se preparando para o próximo inverno. Viajantes passavam a noite enterrados entre vários cães, e por isso eram capazes de evitar se congelarem até a morte. Shion tinha sido contratado para lavar estes cães.

"Inukashi, eu não acho que isso seja uma coisa aprazível para dizer sobre os seus clientes."

"Hein? O que você disse?"

"Não é bom chamar seus clientes de bastardos, ou chamá-los de sujos".

Inukashi esfregou o nariz com as costas da mão, e deu um espirro pequeno.

"Você é a minha mãe ou o que, Shion?"

"Não. Eu fui contratado por você para lavar seus cães."

"O que faz de mim o empregador e você o empregado. E o seu trabalho é calar a boca e fazer o que você disse."

Inukashi puxou o cão branco das mãos de Shion, e começou vigorosamente a lavagem do cão despejando a água que havia retirado do córrego sobre ele.

Na parte de trás das ruínas, era onde corria um rio pequeno e limpo. Não muito tempo depois de Shion ter escapado da Nº 6 para o Bloco Ocidental, ele quase morreu por causa de uma vespa parasita que se plantou em seu corpo. Embora ele estivesse inconsciente na maior parte do tempo com dor e febre alta, ainda se lembrava claramente do gosto da água, fria e deliciosa que havia escorregado várias vezes em sua garganta.

Quando ele agradeceu Nezumi por lhe tratar e dar água, ele havia obtido uma resposta áspera de que havia uma nascente decente por perto. Talvez este fluxo se originava daquela nascente.

"Inukashi, não faça isso. Todo o sabão está indo para o rio." Shion rapidamente conteu as mãos de Inukashi. A espuma se balançava na margem enquanto se afastava.

"E daí?"

"Todo mundo bebe desse fluxo, não é?"

"Bem, sim, claro. Nós não temos quaisquer instalações extravagantes que lhe dão higiene e água com temperatura controlada quando se aperta um botão. Todo mundo tira a água diretamente do rio ou da nascente."

"Então você não pode sujá-lo. Isso é ruim para as pessoas que vivem abaixo do rio".

Inukashi olhou para o rosto de Shion por um breve momento.

"E por que eu deveria me importar com as pessoas que vivem abaixo do rio?"

"Bem, eu quero dizer..." Shion vacilou. "Se você sabe que as pessoas que vivem abaixo do rio vão beber a água a partir daqui, você não gostaria de torná-la suja para eles. Isso é normal, certo?"

"Normal? Estamos falando dos padrões de quem, Shion? Este é o Bloco Ocidental. Você não seria capaz de sobreviver aqui se você saísse por aí colocando todos os outros em primeiro lugar."

"Sim, mas não há necessidade de tornar o rio sujo", Shion protestou. "Nós podemos fazer o que fizemos ontem e colocar água em tambores de aço e lavar os cães lá."

"Ontem só tivemos cães pequenos. Para a sua informação, Shion, nós deveríamos ter terminado com todos os cães ontem. Você dando bobeira está nos custando. Você entende isso, certo?"

"Sim".

"Não só você é terrivelmente lento, como os cães que estamos lavando hoje são todos grandes. E não é só isso, há porrada deles, sacou? Se tirar água do rio para cada um e de cada vez , levaria a eternidade."

Então Inukashi parou e encolheu os ombros ligeiramente.

"Mas se você quer tirar água do rio por conta própria, eu não vou ficar te enchendo."

"Tudo bem. Vou fazer isso."

"É trabalho pesado, cara."

"Eu sei."

"Aliás, eu só estou te pagando para lavar os cães. Levar a água é algo que você está fazendo inteiramente por conta própria."

"Eu não me importo."

"Bem, então mãos à obra. Vou almoçar."

O cão branco agitou-se vigorosamente e gotas de água voaram em todas as direções. Shion pegou o balde que Inukashi tinha jogado nele, e tirou um balde cheio de água do rio.

"Shion", Inukashi disse abruptamente.

"Hm?"

"Por quê?"

"Por que o quê?"

"Porque eu não deveria falar mal de meus clientes? Por que eu tenho que me preocupar com as pessoas abaixo do rio?"

Shion olhou para o rosto bronzeado de Inukashi quando ele sentou no topo de uma pilha de escombros.

"Porque nós somos iguais."

"Iguais?"

"Eles são seres humanos como nós. Então..."

Inukashi de repente jogou a cabeça para trás e riu. Sua voz soou e foi sugada para o céu azul brilhante. Vários cães começaram a latir agitados.

"Somos iguais, hein? Ha ha, você quase me fez rolar. Nunca ouvi essas palavras antes em minha vida. Shion, honestamente é isso o que você acha?"

"Sim, tem algum problema?" Shion disse resolutamente.

Inukashi saltou dos escombros e se aproximou dele. Ele tinha uma estatura pequena, e sua altura só chegava até cerca aos ombros de Shion. Seus braços e pernas finas se sobressaíam de suas roupas pretas, e sua pele tinha uma tonalidade morena.

"Então, meus clientes imundos, e os pirralhos que vêm aqui para tirar água são seres humanos iguais a nós?"

"Sim".

"Você e eu somos humanos iguais?"

"Sim".

Inukashi levantou o braço e o estendeu para cima, para o sol do meio-dia.

"As pessoas de Nº 6, são seres humanos iguais a nós?"

Shion balançou a cabeça lentamente, e respondeu.

"Sim".

O bronzeado suave da pele de Inukashi brilhava à luz do sol, e sua longa franja lançava uma sombra sobre a testa e os olhos. Sob o véu, os olhos castanhos piscaram algumas vezes para ele.

"Shion, você vai morrer."

"Hein?"

"Sua cabeça está nas nuvens ou algo assim? Se você continuar acreditando nessa sua fantasia, você nunca vai sobreviver aqui."

"Nezumi me diz a mesma coisa", disse Shion. "Que eu tenho minha cabeça nas nuvens."

"As nuvens não seriam alto o suficiente, na verdade. Sua cabeça deve estar no espaço, ou algo assim. Eu não sei o que o espaço deve ser, mas é realmente alto, certo? E às vezes você se queima, bem assim mesmo, antes mesmo de chegar lá."

"Eu nunca fui para o espaço, mas sim, eu acho que é realmente alto[2]."

Inukashi subiu agilmente as ruínas, e sentou-se com o céu azul às suas costas. Ele balançou as pernas na borda, e falou baixinho, como que para si mesmo.

"Eu me pergunto por que mesmo que Nezumi te hospeda. Ele odeia pessoas que são de conversar, e irrealistas".

"Inukashi, você é íntimo de Nezumi?"

"Íntimo? O que você quer dizer com íntimo?"

Shion carregou o balde no caminho de grama seca e entulho, e despejou a água no tambor de aço.

"Isso significa que você sabe muito sobre o outro."

"Ah, se esse é o caso, então não. Sei menos que a ponta do rabo do cara, e eu não gostaria de saber." Enquanto ele falava, Inukashi apontou para o filhote marrom claro que estava caindo perto dos pés de Shion. Sua cauda tinha a ponta branca.

"Eu pensei que eram amigos, mas eu acho que eu estava errado..."

"Amigos!" Inukashi exclamou, incrédulo. "Outra palavra que não se ouve com frequência. Amigos. Ha, ridículo. Nezumi só vem aqui quando ele quer a informação que eu ou os meus cães recolhemos. Dou informações a ele, e ele me dá dinheiro. É isso, isso é tudo."

Inukashi ficou em silêncio. Seu olhar vagou, colidiu com o de Shion, e deslizou para longe.

"Não é apenas a informação e o dinheiro que vocês comerciam", Shion disse. Uma afirmação, não uma pergunta.

"Uh... bem, de vez em quando, ele... canta para mim."

"Canta?"

"Ele tem uma boa voz. Então eu... eu o procuro para cantar. Às vezes, quando meus cães morrem... Tudo bem quando você acorda e eles já estão mortos, mas... às vezes, eles estão doentes ou feridos, e não morrem tão facilmente, e eles... eles sofrem. Dói tanto para eles, eles choramingam durante toda a noite. É quando eu o procuro para cantar. Eu não sei qual é o nome da música. Mas... eu não sei como descrever isso... eu não sei, o que seria? " Inukashi murmurou para si mesmo.

"Como é?"

"Hein?"

"A canção de Nezumi. A voz de Nezumi. Se você tivesse que compará-lo com algo, o que seria?"

Inukashi inclinou a cabeça para o lado, e ponderou em silêncio. Shion também silenciosamente continuou levando baldes cheios de água. Ele fez várias viagens entre o rio e o tambor de aço, e quando mais da metade havia sido preenchida, Inukashi abriu a boca novamente.

"O vento, talvez...?" ele disse hesitante. "Um vento que vem soprando de longe... sim, sua canção rouba as almas que estão lutando para não morrerem. Assim como o vento que espalha as pétalas de flores, sua canção corta a alma para longe do corpo. Qualquer cão , não importa o quanto ele está sofrendo, fecha os olhos e fica quieto. Você acha que ele só se acalmou, mas na verdade ele não está respirando. Todos eles morrem silenciosamente, como se todo o sofrimento fosse apenas um sonho ou algo assim." Ele fez uma pausa. "Foi assim com a minha mãe, também."

"Sua mãe faleceu?"

"É. Ela foi morta por um casal de pirralhos que vivem abaixo do rio, para aqueles que você disse que eu não deveria sujar a água. Atiraram pedras nela, e apanhou até a morte com um bastão de carvalho. Mas minha mãe tinha a culpa nisso também. Ela tentou roubar o único jantar deles. Ela entrou sorrateiramente em sua cabana, e foi pega segurando a carne seca em sua boca. Quando ela finalmente escapou e conseguiu voltar, as suas duas pernas da frente e costelas estavam quebradas, e ela estava sangrando na boca. Não havia nada que pudéssemos fazer."

Tendo terminado de encher o tambor com água, Shion limpou o suor da testa. Ele não conseguia entender as palavras de Inukashi.

"Inukashi, isso de pernas da frente... quer dizer as de sua mãe, certo?"

"É. Ela é um cão."

"Um cão?"

Shion podia sentir seu queixo cair. Inukashi olhou para ele e deu uma risada. Sua voz era alta e soou de forma clara no ar.

"Eu fui despejado aqui quando eu ainda era um bebê", explicou. "O velho que me pegou foi um maluco que vivia aqui com os seus cães, e ele me criou junto com eles. Minha mãe me dava leite. Ela me lambia, e se enrolava comigo para dormir. Quando ficava frio, ela se amontoava perto de mim e de meus irmãos – seus filhotes – nos mantendo quente. Ela costumava dizer, pobrezinho, você não tem pêlo, mas pelo menos você fica fresco no verão e não tem pulgas. Ela me dizia isso de novo e de novo, e me lambia até que eu ficasse limpo."

"Ela deve ter sido uma grande mãe", Shion disse suavemente. "Gentil e atenciosa."

Inukashi piscou várias vezes.

"Você realmente acha isso, Shion?"

"Eu acho. Ela te acarinhava. Como você não tinha pêlo, ela te protegia e fazia com que você não congelasse."

"É. Mãe sempre foi muito boa. Ainda me lembro como era a sensação de sua língua. Era quente e úmida... engraçado, eu nunca consigo esquecer isso."

"É o dom da memória."

"Hein?"

"É um presente da mãe para o filho. Memórias que sua mãe deixou para trás para você."

Inukashi parou de balançar suas pernas, e jogou o queixo para trás.

"Eu nunca tinha pensado nisso assim..." ele disse, pensativo. "O dom da memória, hein..."

Shion ajoelhou-se à beira do rio e bebeu um gole de água.

Estava fria. Correu pelo seu corpo inteiro, e estava deliciosa.

Ah, sim, é essa água.

Era a água que saciou o seu corpo exausto como um elixir após sua batalha com a vespa parasita. Não só o seu corpo – a partir do momento em que a água havia deslizado pela sua garganta e ele a achou deliciosa, o ser inteiro de Shion foi revivido novamente. Ele acreditava nisso.

Esta água estava conectada com o que significava estar vivo. Esta frescura, este sabor. Ela estava ligada com a voz que o chamara, dizendo-lhe, não morra, viva, venha rastejando novamente à se levantar.

Era por isso que ele iria se lembrar disso para sempre. Não havia maneira de que ele pudesse esquecer. Profundamente dentro de Shion, esta água e aquela voz haviam estabelecido as suas raízes, e que continuariam a prosperar, nunca a murchar. E, às vezes, ele flutuaria à superfície da sua consciência e, toda vez, ela iria sussurrar para ele.

Não morra. Viva. Venha rastejando novamente à se levantar.

Era o dom da memória, de fato.

"Vou te trazer almoço." Inukashi ficou sobre os escombros, e falou em um tom que soou como um comando. "É melhor ter terminado com esse preto na hora em que eu voltar. Eu não vou deixar você almoçar até terminar."

"Uau, eu ganho até mesmo o almoço? Isso é bom vindo de você."

"Eu apenas não sirvo isso para ninguém, você sabe. Essa é uma refeição inteiramente completa. E com completa eu quero dizer duas coisas: pão e frutas secas."

"Isso é mais que suficiente."

Passando uma escova no pêlo do cão preto, Shion sorriu para Inukashi. Meses se passaram desde que fugiu para o Bloco Ocidental e a fome crônica corroia Shion persistentemente. Às vezes ele gostaria de preencher a sua falta de comida com muita carne, peixe e ovos, e ele ansiava pelo pão e bolos que sua mãe Karan assava. Mas, em contraste, as coisas que ele antes nunca havia sequer conhecido como alimento – sopa feita com pedaços e sobras de legumes, e pão que estava começando a mofar – lhe fizeram água na boca, e saciaram seu apetite.

Ser capaz de comer é o suficiente.

Aqui, todo mundo morria de fome. Eles passavam fome, congelavam, e faleciam. Shion sabia por conta própria como era preciosa a fatia de pão que Inukashi estava prestes a lhe dar.

Ele olhou para o céu, o sol estava brilhante. Esta luz também brilhava sobre N° 6. Seu antigo local de trabalho no Parque Florestal, a área residencial de alto padrão de Chronos, a Cidade Perdida, onde sua mãe vivia, e aqui, o Bloco Ocidental, eram banhados com a mesma luz. Mas as coisas eram muito diferentes.Muito diferentes.

Dividida por um muro especial feito com fusão de metais, prosperidade e pobreza se situavam um em oposição ao outro. Vida e morte. Luz e escuridão. Na mesma hora em que uma festa extravagante estava acontecendo no interior de Nº 6, onde as pessoas tinham vários pratos elaborados e deliciosos, em um canto do Bloco Ocidental, uma pessoa idosa vestida com trapos morria de fome. Enquanto meninos e meninas de Nº 6 iam se aninhar em suas camas em seus quartos com ar condicionado, as crianças nas barracas do Bloco Ocidental se amontoavam perto um do outro para evitar o congelamento até a morte.

Era a verdade que Shion havia visto com os seus olhos. Havia muito poucas coisas que eram como a luz do sol, distribuída de forma igual e amplamente entre todos.

"Vai trabalhar, então" Inukashi cuspiu, e desapareceu nas sombras da ruína.

Tudo o que restava da entrada, a qual provavelmente foi uma vez ladeada por grossas portas de madeira, eram pares de dobradiças enferrujadas. Toda vez que o vento soprava, seu ruído estridente agredia os ouvidos. Inukashi passou por aquela entrada para subir as escadas para o segundo andar. Algum tipo de consideração arquitetônica havia deixado esta parte específica do edifício, que costumava ser um hotel, resistindo contra os elementos. Durável que fosse, o reboco ainda se descascava das paredes, e os corredores e tetos estavam com incontáveis rachaduras.

Edifícios também possuíam uma vida. A partir do momento em que eles eram abandonados começavam a decair. Eles começavam a morrer. Este hotel, que havia se tornado uma ruína, ainda continuava se desintegrando e decaindo. Marchava firmemente para a destruição, nem detestando a crueldade de seus donos humanos, nem lamentando seu destino.

Inukashi ocasionalmente se perguntava o que ele iria fazer uma vez que este edifício se desmoronasse completamente em escombros.

O velho que tinha pegado ele, que lhe deu leite de cão e o ensinou a falar e a escrever, não estava mais aqui. Ele havia saído em um dia de neve, para nunca mais voltar.

Neve? Estava nevando? Talvez estivesse trovejando naquele dia. Ou pode ter sido uma manhã com ventos fortes... de qualquer forma, o velho desapareceu. Ele desapareceu, sem deixar nenhuma palavra de despedida.

Ele não estava sozinho, porque tinha seus cães. Desde aquele dia até agora, ele viveu aqui com eles. Ele não conhecia outra casa. Também não conhecia nenhuma outra companhia humana. Provavelmente o mesmo aconteceu com Nezumi. Ele pode ter ido a mais lugares que Inukashi, mas ele provavelmente morava sozinho, sem conhecer ninguém, nem nunca teve a necessidade de conhecer. Inukashi assumiu isso, por nenhuma razão em particular. Ele não tinha motivos para seu argumento, mas achava que não estava totalmente errado. Inukashi tinha o sentido do olfato aguçado. Nezumi sempre carregava somente o cheiro da solidão. Quando aquele cheiro embaçou, e Inukashi começou a notar um cheiro misto de outro, Shion tinha aparecido junto a ele.

Ele era estranho. Ele era muito estranho. Seu cabelo era branco como neve e tinha uma cicatriz vermelha. Embora Inukashi não tivesse certeza, ele ouviu dizer que a cicatriz cobria o corpo inteiro de Shion como uma serpente enrolada. Mas em termos de aparência, havia toneladas de pessoas que estavam mais estranhas que ele. Sua aparência não era a única coisa – Shion também era estranho por dentro. Ele disse para não sujar a água para os pirralhos abaixo do rio. Ele disse que as pessoas dentro da Cidade Santa e as pessoas como nós eram iguais. E ele falou sobre o dom da memória. Não como um tipo de piada ou sarcasmo, mas com toda a seriedade.

Ele era estranho. Muito estranho. Porque é que o Nezumi ronda um esquisitão como ele?

Inukashi caminhou pelo corredor e abriu a porta no final do mesmo.

"Nezumi".

Nezumi estava sentado em uma cadeira com os pés em cima da mesa.

"Você não pode nem mesmo bater antes de entrar na sala?" Inukashi disse irritado. "Alguém não aprendeu boas maneiras da Mamãe. Nossa". Ele, então, dirigiu um golpe com todas as suas forças para o par de longas pernas que descansavam sobre a mesa. Nezumi fungou levemente em escárnio, e retirou as pernas.

"Eu chamei antes de entrar. Esse cachorro me deu permissão." Um cão com manchas pretas sobre seu pêlo estava deitado em um canto da sala. Ele inclinou a cabeça para o lado, e deu um bocejo largo.

"Se você está aqui para pegar Shion, está cedo. Se ele continuar indo nesse ritmo, provavelmente não vai terminar até à noite."

"Pegar? Nunca."

"Mas ele brigou com os Faxineiros, não foi? Não é perigoso deixá-lo andar sozinho? Vou mandá-lo com um cão no caminho de casa, de qualquer maneira."

"Isso é suficiente."

"Mas os Faxineiros não desistem facilmente. Esse cara se destaca, e se ele for pego, quem sabe o que poderão fazer com ele."

Os olhos cinzentos de Nezumi brilharam, e um leve sorriso apareceu em seus lábios.

"Será que importa para nós o que os Faxineiros fazem com Shion? Qual é, Inukashi? Você está sendo muito bom. Não te reconheço."

Inukashi encarou Nezumi silenciosamente.

O pequeno teatro era uma das poucas instalações de entretenimento no Bloco Ocidental. E como alguém que estava sobre o palco, Nezumi fazia a sua audiência pagar – ou melhor, fazia-lhes quererem pagar – o pouco dinheiro que tinham para um show que lhes forneciam nenhuma nutrição física. Era a formosura profunda da voz clara de Nezumi que os faziam querer pagar. Sua voz colocava as almas que estavam presas e as que estavam morrendo para descansarem, gentilmente as separava do corpo. Sua aparência tornava impossível discernir se ele era homem ou mulher, humano ou demônio, Deus ou Diabo. Sua audiência, em uma breve fatia da noite, poderiam esquecer as dificuldades do dia e as tristezas do dia seguinte, e deixavam-se imersos e intoxicados pela sua voz.

Uma vez ao lado de fora das portas gastas do teatro, a realidade esperava por eles – sem dinheiro no bolso, as crianças chorando por comida em casa – mas apesar disso, os rostos das pessoas estavam sempre cheios de contentamento bêbado enquanto elas se espalhavam aqui e ali na escuridão.

É tudo uma ilusão. Ele é apenas uma grande fraude.

Toda vez que ele se encontrava com Nezumi, Inukashi mentalmente cuspia essas palavras da boca do estômago. Nezumi era como a bela amante que manipulava os homens e sugava tudo o que eles tinham de valor. Inukashi tinha passado por essa experiência uma vez, também.

Mãe estava sofrendo muito, eu não sabia mais o que fazer além de chamá-lo. Pedi-lhe para fazer a alma da minha mãe ir pacificamente. Isso foi bom. Sua música foi impressionante, e a minha mãe foi liberada do sofrimento. Mas o que ele fez antes disso – a enorme quantidade de dinheiro que ele exigiu enquanto minha mãe estava ali sofrendo – era dinheiro o suficiente para eu viver um mês inteiro sem trabalhar. Com qualquer outro cão, eu teria desistido. Eu cortaria sua garganta, ou esmagaria seu crânio com minhas próprias mãos, e o deixaria morrer de uma morte rápida e fácil. Mas eu não podia fazer isso com a minha mãe. Eu nunca poderia fazer isso com ela com minhas próprias mãos. Ele sabia disso, e é por isso que ele exigiu aquela quantidade. Depois de enterrar minha mãe em seu túmulo, eu e os cães tivemos de trabalhar por três dias sem comida. Ele é uma fraude. Ele captura a alma das pessoas, as reprime, e lhes mostra um sonho fugaz. Pode ser vivido, mas ainda é falso. Sonhos são sonhos. Você não pode viver neles.

Inukashi destrancou o armário e pegou pão e um saco de frutas secas.

"Se você não está aqui para pegar Shion, por que você está aqui?"

"Você pode me oferecer almoço? Eu estou morrendo de fome."

"Engraçadinho," Inukashi disse em uma voz zombeteira. "Eu não tenho nada apropriado para um astro como você. Mas se você me pagar uma moeda de prata, eu posso lhe dar pão, frutas e água."

"Uma moeda de prata para um pão bolorento, frutas secas e duras e água do córrego? Isso é extorsão, Inukashi".

"Mais barato do que quanto custa o seu canto."

Nezumi riu suavemente.

"Você ainda guarda rancor por isso?"

"Claro que guardo, merda."

"Eu cantei para seus cães tantas vezes depois disso. Poderia muito bem ter sido caridade pelo valor que eu tomei como pagamento."

"Isso é o que me irrita ainda mais. Você se aproveitou de mim. Fui enganado, você ficou com todo o dinheiro que eu tinha naquele momento. Eu fiquei muito perto de morrer de fome."

"Bem, se isso acontecer de novo, sinta-se livre para me ligar", disse Nezumi amigavelmente. "Eu vou cantar uma canção sobre comida para você, e te ver partir."

"Repleto de compaixão, né?" Inukashi retrucou. Ele encolheu os ombros, e ficou em frente de Nezumi. Ele fez sua pergunta mais uma vez.

"O que você quer?"

Nezumi, ainda profundamente sentado na cadeira, jogou uma moeda única para a mesa. Os olhos de Inukashi se arregalaram.

(Parte B)

"Ouro..." ele sussurrou.

"É real. Veja por si mesmo."

Inukashi comprimiu a moeda brilhante entre os dedos, e olhou para ela.

"Você está certo, é real. Sim. Essa coisa é de verdade."

"Eu quero que você faça um trabalho para mim", Nezumi disse em uma voz inexpressiva.

"Trabalho? Um trabalho que vale uma moeda de ouro?"

"Isso é o pagamento adiantado. Depois que o trabalho for feito, vou lhe dar uma outra moeda de ouro."

"Grande gastador, né? Mas eu não vou querer." Inukashi jogou a moeda de volta sobre a mesa.

"Você está recusando um trabalho que vale duas moedas de ouro, sem mesmo ouvir sobre isso?"

"Eu estou recusando porque é um trabalho que vale duas moedas de ouro. Posso sentir o mau cheiro."

"Mau cheiro?"

"O cheiro do perigo. Meu nariz está me advertindo – ele está dizendo, não vá lá, ou você vai ser morto. Eu não me importo com o quanto dinheiro que você vai empilhar. Se eu morrer, está tudo acabado. De qualquer forma, todo o trabalho que envolve um Rato e que vale duas moedas de ouro é como enfiar a mão em um ninho de cobras venenosas. Eu não quero morrer ainda."

"É por isso que você recebe o dinheiro sem morrer – não é isso o que fazer um trabalho significa? Evitar o perigo não vai te fazer lucrar."

"Depende do nível de perigo. Todos os seus trabalhos são perigosos e complicados. São duas moedas de ouro que estamos falando aqui. Se outra pessoa viesse até mim com este negócio, eu teria pegado em uma fração de segundo. Droga", Inukashi resmungou. "Eu já me sinto roubado."

Nezumi se levantou, e guardou as moedas de ouro.

"Isso é muito ruim. Acho que não tem jeito."

"Sem ressentimentos. As coisas são muito arriscadas com você. Para ser honesto, eu não quero fazer negócios com você."

"Então isso é mútuo", Nezumi disse alegremente. "Tudo bem. Não vamos nos meter mais um com o outro. Eu nunca vou ir até você com um trabalho novo. Quanto a você, não importa o quanto você sofrer, certifique-se que você não venha a mim por isso."

Inukashi apressadamente agarrou o braço de Nezumi quando ele virou as costas. Ele pulou tão de repente que quase tropeçou em si mesmo.

"Es-Espere um minuto, Nezumi. O que você quer dizer com não importa o quanto eu sofrer?"

"Eu te disse. Se você acabar como sua mãe um dia e se estiver sofrendo porque você não pode morrer, não vai ter nada a ver comigo. Você pode me chamar, mas eu não virei."

"O que você está falando...?" Inukashi disse com voz trêmula. "Eu, passando por uma morte dolorosa? Isso nunca iria acontecer... Além disso, eu sou mais jovem que você, não é? Acho que sim, pelo menos."

Nezumi preguiçosamente sacudiu a mão de Inukashi.

"Inukashi, a idade não importa neste lugar. Você sabe disso, não é? A morte nunca pode ser prevista. Ela só vem. E quantas pessoas aqui têm a sorte de morrer sem dor, né? A maioria sofre, sofre, e morre se contorcendo. Amanhã, alguém pode esfaquear seu estômago. Você pode quebrar o seu crânio em pedacinhos nos restos de escombros. Você pode ter bactérias em uma ferida, apodrecê-la, e apodrecer vivo. Você pode aparecer com uma doença grave. Pode garantir que nada disso vai acontecer com você? Hum, Inukashi? Você pode dizer com certeza que você, acima de todas as pessoas, vai morrer sem sofrimento?"

O par de olhos cinzentos se ergueu nele. Eles tinham o brilho de um pano fino, e brilhavam vagamente como as nuvens quando envoltas ao sol. Sua voz profunda reverberou em seus ouvidos.

Inukashi sugou uma respiração, e deu um passo para trás.

Era um truque. Uma ilusão. Ele está tentando me sugar.

"Sofra o tanto quanto você puder por não poder morrer. Eu não vou me envolver. Tudo bem para você, certo?"

Inukashi se afundou em uma cadeira.

Ele conheceu a morte. Ele a tinha visto inúmeras vezes. Nenhuma dessas vezes poderia ser chamada de decente. Era por isso que – era por isso que ele queria permanecer vivo. Sentia-se como se pelo tanto que ele tinha sobrevivido, fosse capaz de experimentar uma morte mais ou menos melhor. Embora muito insignificante para chamar de esperança, Inukashi admitiu sentir uma espécie de desejo de morte pacífica.

Droga.

Ele rangeu os dentes. Os lábios de Nezumi se curvaram levemente em um sorriso.

Isso é uma ameaça. Eu posso facilmente recusar a oferta de Nezumi agora. Mas depois disso, se eu fosse ter o mesmo destino que minha mãe teve – meus ossos quebrados, minhas entranhas esmagadas, sangue jorrando da minha boca, e se eu tivesse que morrer assim... Se não houvesse nada para aliviar a minha dor, anestesiar ainda que um pouquinho – se eu não tivesse escolha a não ser lamentar e implorar para alguém me matar, rápido, por favor, até que a morte viesse para me reivindicar – Só de pensar teve um arrepio em sua espinha. Ele se rompeu em suor.

"Sente-se", Inukashi proferiu fracamente. "Eu vou ouvir o que você tem a dizer primeiro."

A mão enluvada de Nezumi se estendeu em direção a ele e acariciou sua bochecha.

"Bom menino".

"Foda-se".

Inukashi olhou para o rosto que ainda sorria palidamente para ele. "Deixe-me dizer uma coisa, Nezumi. Não acho que esse jogo vá funcionar o tempo todo."

"Jogo? Eu só quero que você faça um trabalho para mim. Uma forma rude de tratar um cliente, você não acha, Inukashi?"

"É esta a sua ideia de um cliente decente? Aproveitando a fraqueza de alguém, ameaçando-o, em seguida, forçando um trabalho perigoso para ele? Acho que até as pulgas são um pouco mais agradáveis para os cães que elas infestam, comparado a você."

"Você não disse," Nezumi disse, "que a culpa reside na pessoa que tem uma fraqueza que pode ser aproveitada antes de tudo? Nestas partes, expor a sua fraqueza pode lhe custar a vida. Não é novidade para você, eu espero."

Nezumi mais uma vez acariciou a bochecha de Inukashi quando ele ficou em silêncio, e murmurou com simpatia.

"Você tem medo da morte. Mais do que qualquer coisa, você está com medo do sofrimento que leva até ela. Você faria qualquer coisa para ser poupado do mesmo. Sei disso, e eu sou capaz de aliviar a sua dor, não sou? Eu não quero fazer chantagem e me aproveitar de você. Estou tomando as medidas adequadas, pagando-lhe dinheiro em troca de um trabalho."

"Isso é o suficiente!" Inukashi bateu na mesa com o punho. Dois filhotes que estavam brincando embaixo da mesa desfecharam de sob ela e fugiram.

"Seu fraudulento, seu sofista, seu ator de terceira categoria! Espero que você engasgue com veneno de rato e morra." Sem fôlego, Inukashi respirou irregularmente.

"Terminou?" Nezumi disse momentaneamente. Seu tom de voz calmo e sereno ainda pulsava a ira de Inukashi. Mas não adiantava ficar irritado. Nezumi estava certo. Ele estava em falta por expor a sua fraqueza e se deixando vulnerável. Estas eram as regras deste lugar.

Inukashi suspirou, e ajustou a si mesmo em seu assento.

"Vamos ouvir o que você tem a dizer. Eu não tenho muito tempo. Seja curto e doce."

Nezumi abaixou-se em um assento também. Ele não estava mais sorrindo.

"Eu quero informação."

"Eu já sabia", Inukashi disse simplesmente. "Já que você não seria tolo o suficiente para vir a mim à procura de mantimentos. Então? Informações sobre o quê?"

"A Instituição Correcional".

Inukashi quase caiu.

"Instituição Correcional!", exclamou. "Você quer dizer a que o Departamento de Segurança preside?"

"Existe alguma outra Instituição Correcional que ninguém conhece?" Nezumi disse sarcasticamente.

Inukashi ignorou.

"Então você quer informações... que tipo de informações?"

"Qualquer tipo, não importa quão insignificante." Nezumi pescou um pequeno rato branco do bolso. Era do tamanho de um polegar de adulto. Os olhos de Inukashi se estreitaram.

"Isso é um robô? É menor do que o que você me deu da última vez."

Tirando as luvas, Nezumi gentilmente pressionou a cabeça do rato. Suas costas se abriram, e um brilho de luz amarela piscou momentaneamente antes de uma imagem flutuar de dentro dele.

"O que é isso?"

"Um holograma. O mecanismo incorporado neste rato usa luz para reproduzir objetos."

"Eu sei o que é um holograma", Inukashi disse irritado. "É a primeira vez que eu realmente vejo um, embora," ele disse como um adendo. "Mas eu estou perguntando sobre o que é exibido aí. O que é isso? Um projeto?"

"É uma planta da estrutura interna da Instituição Correcional, mas é muito desatualizada. A estrutura em si não pode ter mudado, mas o seu sistema administrativo provavelmente foi melhorado."

Inukashi fez uma careta para ele de uma forma que dizia, 'você deve estar brincando'.

"Não posso fazer. Eu não me importo com o tipo de informação que você queira, eu não vou ser capaz de conseguir isso para você."

"Por quê?"

"Por quê? Não me faça perguntas estúpidas. Você sabe que tipo de lugar é? É claro que não", ele disse sem rodeios, "Eu não sei. Ninguém sabe, porque não tem uma única pessoa que saiu viva desse lugar – nem mesmo cadáveres saem de lá. Assim que passam pelos portões especiais, eles desaparecem. Eles desaparecem da face da terra. Esse é o tipo de lugar que é, certo? Isso é o que os rumores dizem. "

Inukashi engoliu em seco, e estremeceu. Nezumi ecoou suas palavras de volta para ele sem expressão.

"Rumores?"

"Rumores dizem..." Inukashi começou hesitante, "que há um incinerador enorme no porão, e todos os presos são jogados lá. Eles se queimam como lixo. E as cinzas que saem de lá são espalhadas sobre os campos agrícolas do Bloco Sul, em vez de ir à eliminação de resíduos. Dizem que é bom para o solo... Aqui, neste lugar."

Inukashi apontou para o chão mais inferior, provavelmente no porão, no diagrama que flutuava acima da tabela, e estremeceu novamente. Era um espaço em branco, e não havia nada escrito nele. Este espaço vazio curiosamente lhe deu uma sensação estranha.

"Não há um incinerador lá", Nezumi murmurou.

"O que te faz ter tanta certeza?" Inukashi disse em tom acusador. "Você já viu? Como você pode dizer isso sem nem mesmo..."

Inukashi grampeou suas palavras ao meio e encontrou-se olhando para Nezumi.

"Você sabe?"

Não houve resposta.

"Você sabe o que tem dentro da Instituição Correcional? Quando..." a mão de Inukashi atravessou a luz, e apertou em um punho. A imagem se agitou e se deformou.

"Quando você gravou isso?" ele exigiu. "São dados internos."

"Inukashi, eu não estou te pagando ouro para responder suas perguntas, eu quero o que você pode gerenciar – encontrar qualquer informação mais recente sobre o interior da Instituição Correcional, e adicionar a esses dados. Especificamente, se eu tivesse que ser exigente, eu gostaria de informações precisas sobre as operações e sistemas de segurança."

"Você é estúpido ou algo assim? Sistema de Operações? Apenas pessoas em classes mais altas têm acesso a isso, é secreto. Grande sorte se eu puder botar as mãos nisso."

"É por isso que eu não estou sendo exigente. Reúna tudo o que você puder controlar. Qualquer informação que tenha a ver com a Instituição Correcional, e eu quero o mais rápido possível. Vou deixar você com isso."

Nezumi desligou o interruptor, e jogou o rato projetor para Inukashi. Inukashi torceu o nariz para ele como se fosse um cadáver em decomposição.

"E se eu usar o mini-rato que eu ganhei de você pela última vez?", perguntou ele.

"Não, isso não vai funcionar. A Instituição correcional é cheia de sensores de segurança. Qualquer robô, não importa quão pequeno, vai ser explodido se for pego correndo ao redor sem o devido reconhecimento."

"Então use ratos reais", Inukashi continuou. "Eles vão ser capazes de entrar muito mais fácil do que os cães. Um organismo vivo pequeno não é um problema para o sensor, é?"

"Não é tão rápido. Esqueça os ratos, mesmo moscas ou baratas seriam exterminadas automaticamente. Lasers os queimariam de modo que não restasse nada deles. Eles não deixam uma única mosca invadir aquele lugar. E é assim que é."

"Então o que eu devo fazer?" Inukashi disse em frustração. "Como é que eu vou me esgueirar e recolher informações de um lugar que é todo gerenciado por computadores?"

"Você não tem que se esgueirar. Você está certo – praticamente todo o interior da Instituição é gerido para o tee. Mas ainda há muitas áreas que envolvem pessoas, também. E informações normalmente vazam através das bocas das pessoas... Se há algo que os computadores não podem controlar, é a língua de um homem."

Inukashi encolheu os ombros exageradamente. Ele estava começando a entender, ainda que vagamente, onde Nezumi estava tentando chegar. Ele não queria ver mais claramente se ele poderia ajudá-lo.

"Claro", ele concordou prontamente. "Você precisa de pessoas para operar os computadores e os robôs humanoides. Os guardas teriam de ser humanos, e os oficiais do Bureau estariam entrando e saindo de lá. E não podemos esquecer os prisioneiros, eles são humanos também, certo? Mas, além deles, as únicas pessoas que podem entrar e sair da Instituição Correcional são pessoas de dentro da Nº 6. Você precisa de um cartão de identificação para atravessar os portões especiais. É impossível criar um cartão de identificação falso da Nº 6. O que significa que ninguém do Bloco Ocidental pode chegar perto do lugar, a menos que eles sejam presos. Não que alguém fosse querer chegar perto de lá, de qualquer maneira. Então..."Ele estava falando bastante rápido. "Bem... Se chegarmos à conclusão, é praticamente impossível nós interagirmos com pessoas dentro da Instituição Correcional, porque eles são moradores da Nº 6, e que torna um caso impossível, certo? Você deveria saber melhor do que ninguém. Esses caras vivem em um mundo completamente diferente do nosso. É apenas diferente."

"Inukashi".

"O que?"

"Você está tagarela hoje."

Inukashi baixou o olhar. Ele sabia que baixando os olhos sinalizaria derrota, mas ele não tinha energia para olhar de volta para o par de olhos cinzentos que olhava para ele. Ele já sabia quem iria ganhar e quem iria perder.

Nezumi se levantou e se aproximou de Inukashi, que estava olhando para o chão. Ele sussurrou com voz rouca e baixa, mas sensual - uma voz de mulher.

"É assim que você sempre é. Quando tem algo a esconder, você de repente se torna mais eloquente. E então eu percebo a verdade que está em seu coração – isso que está de baixo dessa língua, batendo como uma folha no vento, um segredo furtivo é enrolado."

Seus dedos acariciaram o queixo de Inukashi, deslizaram a sua mandíbula, e levemente beliscaram o lóbulo da sua orelha. Inukashi estremeceu. O breve momento de êxtase foi seguido rapidamente por uma pequena e afiada dor. O lóbulo de sua orelha foi arrancado.

"Ai!" disse indignado. "O que diabos foi isso?"

"Não me subestime, Inukashi."

"O que você está falando? Eu não estava."

"Pare de bancar o desentendido. Eu sei para o que você está usando os seus cães. É por isso que eu vim aqui."

Inukashi estalou a língua, e empurrou violentamente a mão Nezumi para longe. Nezumi riu divertidamente.

"Você usa seus cães para contrabandear, não é? Você tem transportado restos de comida e lixo da Instituição Correcional para o Bloco Ocidental. Durante anos agora."

"Eu estou", respondeu Inukashi desafiadoramente. "Então o que? Transporte de mercadorias também é parte do meu negócio. Um rato como você não pode me dizer o que fazer."

"A Instituição Correcional tem funções inteiramente de disposição de resíduos", Nezumi continuou. "Eles podem dispor tudo dentro daquele prédio. Você disse que nem mesmo os cadáveres podem sair de lá. Está certo. Eles dispõem cadáveres dentro daquele lugar. O que significa que nem mesmo um grão de poeira deve escapar de lá, muito menos restos de comida. Dessa mesma Instituição Correcional, você de alguma forma consegue obter cargas periódicas de restos de comida, e vender para as barracas de comida no Bloco Ocidental. Consegue um bom dinheiro, não é? Talvez até mais que o negócio do seu hotel?"

"Não é de seu agrado que eu esteja operando no mercado negro?" Inukashi disse sarcasticamente. "Você deve estar brincando comigo. Desde quando você se tornou um lacaio da Secretaria, hein, Nezumi?"

"As máquinas não negociam com comerciantes do mercado negro. Uma vez programadas com um conjunto de regras, elas nunca vão quebrá-las. Se alguém vai quebrar as regras, são os seres humanos. Há alguém no interior da Instituição Correcional que está te vendendo restos de comida, não é? Não, não apenas de comida. Provavelmente estão te passando rações de prisioneiros e outros pertences a seu alcance também. Enfim, o fato é que você tem um contato dentro da Instituição Correcional. Fareje as informações dele."

Inukashi balançou a cabeça. O jovem a sua frente estava tentando envolvê-lo em mais perigo do que ele esperava. Inukashi eclodiu em um suor frio.

"É impossível", ele murmurou. "Os caras que eu lido são os mais baixos dos baixos. Eles praticamente fazem a limpeza e eliminam resíduos ao lado dos robôs. É impossível que eles tenham qualquer tipo de informação útil."

"É exatamente por isso que você quer perguntar a eles. Os caras na camada superior são rigorosamente supervisionados pelas autoridades. Eles não podem se arriscar de deixar deslizar algum segredo. Mas a gestão é frouxa com as pessoas em posições inferiores. E se o trabalho deles é limpar o lugar, provavelmente eles estiveram em todos os lugares dentro da Instituição. Quem sabe eles têm mais informações do que você pensa. Seu trabalho é farejar isso. Seu nariz é tão bom como o de um cão, não é?"

Inukashi deu um suspiro, e em vão tentou um último ato de retaliação.

"Eu preciso de dinheiro. Para obter qualquer informação deles, eu precisaria de dinheiro. Duas moedas de ouro não vão dar."

Nezumi assentiu, e passou uma pequena bolsa de couro para Inukashi. Nela, havia um número considerável de moedas de ouro.

"Eu só tenho isso agora." Nezumi de repente agachou-se e olhou nos olhos do Inukashi.

"Inukashi, trabalhe comigo. Estou implorando".

Implorando? Nezumi, você está implorando para mim?

"Se você pegar o trabalho, eu prometo que sempre vou correr para seu lado se você estiver com uma dor insuportável um dia. Não importa onde você estiver, eu vou entregar uma música para a sua alma. Prometo."

"Quem é que vai confiar em uma promessa entre um cão e um rato?"

Ninguém podia garantir isso. Mas ainda assim – Nezumi iria manter sua promessa. Quase instintivamente, o sentimento atingiu a alma de Inukashi.

Não importa onde ou como eu morrerei, se estivesse acompanhado com sofrimento, ele sempre apareceria e colocaria a minha alma para descansar. Ele podia ser difícil para caramba de entender, mas ele nunca iria quebrar uma promessa.

Inukashi acreditava firmemente em seus próprios instintos. Ele estendeu a mão e a fechou em torno da bolsa de couro.

"Vou pegar o trabalho."

"Fico te devendo uma". Nezumi expirou brevemente, e enrolou a capa de super fibra ao redor de seus ombros. Então, ele colocou um dedo sobre os lábios.

"Eu não precisaria te dizer, mas nada disso..."

"Eu sei. Eu não vou deixar ninguém ficar sabendo do trabalho. É a regra fundamental do meu negócio. Vou reunir as informações o mais rápido que eu puder, e te contatar antes que alguém possa descobrir."

"Eu estou contando com você."

"Nezumi, eu quero te perguntar uma coisa."

"O que?"

"Para que você está fazendo isso?"

Silêncio. Era impossível ler uma única expressão do rosto de Nezumi. Inukashi lambeu seu lábio inferior, e continuou.

"Com esse dinheiro, você poderia viver uma vida fácil por um bom tempo. Eu sabia que você era um astro e fazia um pouco de dinheiro, mas mesmo assim, isso é muito. Gastando tanto dinheiro, e me ameaçando..."

"Eu não estou te ameaçando. Só vim para você com um emprego."

"Hmph... Que seja. Então, indo tão longe a ponto de me solicitar um trabalho... O que faz você querer tanto meter o nariz na Instituição Correcional? Qual é a sua razão?"

Nezumi não respondeu. Ele só fez um leve meio sorriso. Era um artificial, feito para o palco.

"Você não precisa saber para fazer o trabalho, não é, Inukashi?"

"Bem, obviamente", Inukashi disse irritado. "Mas me meter neste tipo de trabalho arriscado sem mesmo saber o porquê é meio duro, cara."

"Descobrir o porquê não vai mudar o quanto que é arriscado."

Tsk. Esse cara e seu gosto por argumentos que dão voltas – Não sou páreo para ele quando se trata de argumentos verbais.

"Tudo bem", disse ele finalmente. "Isso é o suficiente de você. Saia já daqui." Inukashi bateu a mão para enxotar Nezumi. Ele sentiu o cheiro de sabão. A imagem de um rosto cruzou sua mente. Era o rosto de alguém que estava lavando os cães, coberto de espuma. A questão indiferente saiu de sua boca.

"Nezumi, isso não tem nada a ver com Shion, não é?"

Por um breve momento, os olhos cinzentos vacilaram. Os olhos de Inukashi não perderam a sua hesitação. A ponta de seu nariz se contraiu. Ele podia sentir o cheiro de algo.

"Shion?" Nezumi levantou os ombros ligeiramente. "Onde é que Shion entra nisso? Isso não tem nada a ver com ele."

"Agora, você me disse para não divulgar informações sobre este trabalho a ninguém. Você quer dizer que eu também não posso dizer a Shion?"

"É claro. Não há necessidade de envolver as pessoas que não têm nada a ver com isso."

"Querido, querido, não é você que está sendo gentil aqui?" Inukashi zombou. "Quem sabe quantos empregos perigosos que você colocou em minhas mãos, mas quando se trata de Shion, oh não, eu não posso envolvê-lo. Ah, sei. Acho que até você se aquece para as pessoas se tiver vivido com elas por muito tempo. É esse garoto esquisito de cabeça branca que é precioso para você?"

Nezumi desapareceu diante de seus olhos. Antes mesmo que ele pudesse proferir um grito, o corpo Inukashi estava sendo empurrado contra a parede, e um conjunto de dedos estavam cavando em sua garganta.

"Você já bancou o espertinho o suficiente", Nezumi assobiou. "Qualquer coisa a mais, e eu vou ter certeza de que você nunca mais irá falar."

"Vamos ver você tentar", Inukashi disse corajosamente. "Esses garotos não vão deixar."

Vários cães que estavam esparramados no chão ficaram de pé, rosnando ameaçadoramente enquanto eles cercavam Nezumi. Quando um deles mostrou os dentes, uma pequena sombra cinza saiu correndo de um canto da sala.

Um grito estrangulado.

O cão de grande porte que tinha mostrado os dentes elevou sua voz em dor. Um pequeno rato estava aferrado em seu pescoço. O cão se contorceu, sacudiu violentamente a cabeça de um lado para o outro, mas logo caíram suas patas dianteiras. Seus quatro membros convulsionaram. Os outros cães recuaram com medo. Inukashi empurrou Nezumi de lado e gritou, da mesma forma estrangulada que seu cão fez.

"Meu cachorro, meu cachorro!" Ele levantou o corpo do cão em seus braços. Uma voz fria incidiu sobre sua cabeça.

"Se você não quiser acabar como ele, acalme seus outros cães."

"Nezumi, seu desgraçado..."

Cheep-cheep.

O grito suave de um rato. Inukashi levantou o rosto, e sua respiração ficou presa na garganta. Ele olhou em volta da sala, estava preso ao chão. Do alto dos armários, debaixo da mesa, na sombra da porta, de vários lugares na sala, inúmeros ratinhos cinzentos olhavam silenciosamente para ele. Todos os seus olhos eram vermelhos, e brilhavam profundamente.

"Para baixo", Inukashi ordenou com a voz rouca. Os cães fizeram como lhes foi dito. Eles voltaram para os seus lugares, e abaixaram seus estômagos.

"Ele não está morto", disse Nezumi. "Ele só está um pouco paralisado. Dê vinte, trinta minutos e ele vai ficar bem. Ele está respirando corretamente, certo?"

Foi como Nezumi havia dito. A respiração do cão era agitada, mas consistente. Ele estava lutando para se levantar, mas parecia que não tinha forças. Ele deu um gemido lamentável.

"Você vai pagar por fazer isso com o meu cão." No momento em que Inukashi cerrou o punho, a porta se abriu com um estrondo. Shion se irrompeu para dentro.

"Inukashi!" Shion estava congelado, ainda segurando a maçaneta. Seu olhar deslizou de Inukashi, que estava abraçando seu cão, para Nezumi.

"Nezumi, o que você está fazendo aqui?"

"O que você está fazendo aqui? Você não deve abandonar seu local de trabalho assim."

"Bem, eu ouvi um cachorro uivando, e eu pensei que tinha ouvido a voz de Inukashi também... Eu pensei que algo tinha acontecido... Inukashi, o que há de errado com o cão?"

"Ele só está paralisado", Nezumi respondeu por ele. A cabeça de um rato marrom apareceu no ombro do Nezumi. Ele pulou no chão, e correu o corpo de Shion.

"Hamlet, você também veio?" Shion disse a ele.

"Hamlet? O que você está falando?"

"É o seu nome. Porque ele gosta que leiam Hamlet para ele."

O rosto de Nezumi se contorceu.

"Não vá nomear meus ratos sem permissão."

"Bem, você não iria nomeá-los", disse Shion, imperturbável. "...Ele parece gostar muito. Certo, Hamlet?"

O rato assentiu sua cabeça para cima e para baixo.

"Ridículo", Nezumi cuspiu. "Então, se esse cara é o Hamlet, quem é o outro? Otelo? Macbeth?"

"Cravat."

"Cravat? Havia um nome assim em Shakespeare?"

"É o nome de um pastel frito. A cor de sua pele se parece com um. Significa 'gravata', por causa da forma. A massa tem amêndoas pulverizadas, e você torce em forma de um laço para fritar..."

"Entendi, isso é o suficiente", Nezumi interrompeu. "Vai sonhar em encher a barriga com essas gravatas ou com o que quiser quando você for dormir esta noite. Estou indo para casa. Falar com você me dá dor de cabeça."

"Você tem certeza que não tem algo a ver com os nervos? Você está sempre irritado. Talvez você esteja cansado."

"De quem é a culpa por eu estar irritado o tempo todo? Além disso, você..."

Sentindo o olhar perplexo de Inukashi sobre ele, Nezumi fechou a boca. Ele recolocou seu pano de super fibra, e saiu da sala sem dizer uma palavra. Hamlet cutucou Shion no rosto e chiou uma vez antes de seguir seu mestre.

Os ratos cinzentos que estavam por toda a sala tinham desaparecido misteriosamente. Inukashi deixou um longo suspiro escapar de seus lábios, e caiu no chão. O cão deu um rosnado baixo em seus braços. Shion se abaixou em um joelho e começou a inspecionar o cão completamente.

"Ele parece como se tivesse sido paralisado com algum tipo de droga... mas o seu coração está batendo normalmente, e ele não está vomitando. Ele deve estar bem."

"Sério? Ele não vai morrer?"

"Ele vai ficar bem. Ele apenas está um pouco paralisado. Devemos lhe dar água limpa para beber. Vou pegar um pouco." Shion encheu o balde que ele estava usando para levar a água do rio, e o trouxe para o cão. O cão engoliu a água ansiosamente.

"Veja, parece que a dormência quase se foi. Mas este cão... Como ele se paralisou?"

"Nezumi fez isso."

"Nezumi? Com o cão? Sem chance."

"Com chance", Inukashi disse com raiva. "Ele fez isso. Aquele desgraçado paralisou o meu cão. Ele não hesitaria em fazer algo assim. Ele é impiedoso, astuto e cruel. Gostaria de ver se eu fosse você. Se você deixar o rosto dele te enganar pensando que ele vai ser gentil e carinhoso como sua mãe, você terá uma surpresa desagradável."

"Eu não acho que ele é a minha mãe, mas eu acho que ele é amável."

Inukashi fez círculos com o dedo indicador na frente do rosto Shion.

"Idiota. É por isso que eu estou falando quando digo que ele te enganou. Você é muito ingênuo para perceber como ele é insensível."

"Nezumi não é insensível. Ele salvou minha vida mais de uma vez. Se não fosse por ele, eu não teria sido capaz de sobreviver."

"Nezumi, ajudando um estranho? Sem nada em troca?"

"Sem nada em troca. Pelo contrário," Shion disse reflexivamente, "Eu acho que ele trouxe um incômodo para si. Pode parecer estranho vindo de mim, mas eu acho que estou sendo um pouco um fardo para ele. Depois de tudo, eu ainda não sei nada sobre como viver aqui."

Inukashi franziu os lábios. Ele deixou o olhar pairar sobre o perfil de Shion enquanto lavava a ferida do cão com água.

Um incômodo? Ele estava muito certo. Nestas partes, alguém que era tão ingênuo e crédulo como ele, e gentil com todos, não era outra coisa senão um incômodo. E ele se tornou um incômodo, muitas vezes as algemas que atava as mãos e os pés.

Mas Nezumi estava vivendo com este estranho incômodo, à procura de nada em troca. Ele não estava afugentando Shion de seu ninho – ao contrário, ele o estava protegendo lá.

Por quê?

"Ei, Shion."

"Hm?"

"Você dois sempre conversam assim um com o outro?"

"Huh? Bem... Sim, eu acho. Por quê?"

"Porque Nezumi geralmente não é assim. Ele não deixa suas emoções se mostrarem."

Shion inclinou a cabeça para o lado com curiosidade, como se dissesse: 'Sério?'. O cão lambeu as costas de sua mão. Era a sua maneira de expressar gratidão por tratar da ferida.

Inukashi mexeu o nariz e sorriu. Ele estava em um perfume.

Shion e o trabalho envolvendo a Instituição Correcional estavam ligados de alguma forma. Por esta criança, Nezumi voluntariamente pisava em território perigoso.

Inukashi não tinha provas. Ele não tinha certeza de qualquer razão clara para porque Nezumi estava fazendo isso. Mas ele tinha pegado a fraqueza de Nezumi agora, e isso era certo. Meu nariz não mente.

Nezumi, então este esquisitão é a sua fraqueza, seu calcanhar de Aquiles, hein? Heh, então as coisas devem ser interessante. Você disse isso. Deixar ninguém descobrir a sua fraqueza, pois poderia custar a sua vida. Você está absolutamente certo. E eu tenho a sua salvação em minhas mãos agora. Vou me certificar de que você se recompense pelo que você fez para mim. Você pode contar com isso.

"Eu posso estar errado, mas..." a voz de Shion chegou aos seus ouvidos. Ele estava acariciando o cão, que tinha se levantado e estava abanando o rabo energicamente, aparentemente totalmente recuperado da paralisia.

"Hein? Você disse alguma coisa?"

"Este cão... ele é parente seu, por acaso?"

"Ah..." Inukashi fez uma pausa. "Sim, ele é. Ele foi o último que minha mãe deu à luz. Teve ele, e foi espancada até a morte pouco tempo depois." Houve um lapso antes de ele dizer: "Como você sabe?"

"Eu só tive um pressentimento", Shion disse. "Ele tem olhos muito inteligentes e compassivos. Lembrou-me o que você disse sobre sua mãe, assim eu me perguntava se eu estava certo."

A mão de Shion acariciou o pescoço do cachorro. Os olhos do cão caíram semi-fechados, e um suspiro escapou de sua boca. Dessa sua expressão pacífica, era difícil imaginar que esse mesmo cão tinha mostrado os dentes para Nezumi antes.

"Shion, você não riu."

"Hein? Sobre o quê?"

"Sobre minha mãe. Normalmente, quando falo com as pessoas sobre a minha mãe sendo um cão, riem, ou zombam de mim, ou me tratam como uma aberração... mas você – você disse que a minha mãe era gentil e amorosa. Você foi o único que me escutou sem rir ou tirar sarro da minha mãe, além de..."

Inukashi grampeou suas palavras, e engoliu em seco. Ele acabara de perceber esse fato. Ao mesmo tempo, ele foi dominado com uma onda de agitação que ameaçava sufocá-lo.

Shion, ainda de joelhos, olhou para ele com uma expressão preocupada. Inukashi lambeu os lábios secos, e lentamente formou o resto de suas palavras como se traçando o fio de sua memória.

"Você foi o único – além de Nezumi"

Leia o capítulo 2.

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Notas

1. Shakespeare, William. Macbeth . Cambridge: Cambridge UP, 1921-1951.(1,7. 81-82) [Voltar]

2. Esta passagem inteira é um jogo de palavras com o duplo significado de amai o que pode significar tanto "doce" e "indulgente / ingênuo". O tradutor do livro para inglês substituiu toda a analogia com nuvens / espaço, porque uma tradução literal não faria sentido. Inukashi também usa a analogia para aludir à forma como os argumentos de Shion "derretem" facilmente (ou seja, eles são infundados, portanto corroem facilmente). No entanto, para referência, aqui estão as traduções literais:

"Se você fala sério sobre as coisas doces que você está dizendo, você nunca irá sobreviver aqui." 
"Nezumi diz a mesma coisa, que eu sou muito doce."
"Muito doce não descreve o suficiente. O que você está falando está soando mais como um castelo de açúcar. Eu particularmente nunca vi ou comi um castelo açúcar, mas deve ser realmente doce, e deve derreter quando se derrama água sobre ele, certo?" 
"Eu nunca joguei água em um, mas eu acho que você está certo, é muito doce." [Voltar]

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Ver mais…

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

[Novel] No. 6 Volume 2 Capítulo 5

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Capítulo 5: Perigo oculto

No primeiro dia, todos apontavam para seus países. No terceiro ou quarto dia estávamos apontando para os nossos continentes. Ao quinto dia, víamos apenas uma Terra.
- Sultan bin Salman Al-Saud, astronauta

Depois que Shion havia acabado de ler o livro de imagens, Karan deu um suspiro de satisfação.

"Foi uma boa história."

Rico abriu suas narinas mal-humorado. Ele brincou com os curativos recém mudados em seu pescoço e reclamou.

"Bem, eu não acho que foi bom. Histórias sobre coelhos são chatas."

"Então, que tipo de história que você quer ouvir, Rico?" Shion perguntou.

"Ummmm..." Rico parou por um momento de reflexão. "Ah, uma história sobre o pão. E... e uma sobre sopa e batatas doce fritas."

"Você deve estar com fome, Rico."

Karan virou-se para Shion e assentiu.

"Ele está com fome o tempo todo. Rico fica mais com fome do que qualquer outra pessoa."

"Só um minuto, então. Eu acho que tenho um pouco de sopa..." Havia sopa sobrando para ele? Uma tigela de sopa que poderia saciar o estômago vazio de Rico por um curto tempo...

Karan se levantou.

"Não, obrigado. Está tudo bem. Temos de ir para casa agora." Ela levou o seu irmão mais novo pela mão e foi até a porta. Ela parou, virou-se e falou em voz baixa. "Obrigado por ler para gente."

"Vocês são muito bem-vindos."

"Podemos vir amanhã de novo?"

"É claro."

"Ok". Um sorriso se espalhou pelo rosto Karan, e ela meio que arrastou Rico para fora. Nezumi se esticou na sombra de uma pilha de livros.

"Estúpido como sempre, não é?"

"Estúpido? Eu?"

"Dizem que os maiores idiotas são aqueles que não percebem que são idiotas. Acho que tinha um provérbio assim." Nezumi se levantou, e colocou o pano de super fibra em seu pescoço. "Você tentou ajudar as crianças. Você tentou dar-lhes resto de sopa."

"Isso é uma coisa estúpida de se fazer?"

"Essas crianças vieram aqui para que você lesse para elas, não vieram para mendigar. Se você pudesse garantir que Rico nunca fosse morrer de fome de novo, seria bom e legal. Mas se você lhe der sobras de sopa um dia por capricho, o que vai fazer da próxima vez que ele morrer de fome? Você não seria capaz de cuidar dele o tempo todo. Se você estiver indo ser irresponsável e for abandoná-lo no meio do caminho, seria melhor que não desse nada a ele em primeiro lugar. Karan tem uma ideia melhor de como as coisas funcionam. Essa menina é brilhante e digna. Ela soube recusar a sua caridade meio-sentimental e imprudente."

Shion se afundou em uma cadeira. As palavras de Nezumi sempre lhe infligia dor. Parecia que sua pele estava sendo arrancada de seu corpo. Ele quase podia ouvir o som de sua carne sendo rasgada por ele. Sua idiotice, sua arrogância, sua negligência. Sua vaidade fora despojada dele, ele fora deixado nu: superficial e pretensioso ― seu verdadeiro eu. Nezumi caminhou à sua frente e continuou a falar enquanto colocava um par de luvas.

"Há um segundo exemplo de sua estupidez. Quer ouvir?"

"Claro. Diga-me."

"Você fez uma promessa para amanhã."

"Há algo de errado nisso?"

"Não há nenhuma garantia de que vai haver um amanhã."

Shion respirou fundo.

"Então você está dizendo que eu não posso ter certeza de que eu vou estar vivo amanhã para ler um livro para essas crianças?"

"É. Veja, você está começando a pegar as coisas mais rapidamente. Você está na lista de procurados da Secretaria, e saiu vagando ontem. Eu não ficaria surpreso se os satélites de rastreamento já te pegaram. Talvez os caras que não têm nada melhor para fazer na divisória da aplicação da Lei da Secretaria de Segurança estejam vindo para cá agora. Se estiverem, então você pode esquecer de ter um amanhã de leitura. Na melhor das hipóteses você estaria em uma cela solitária na Unidade Correcional, na pior das hipóteses, você não iria nem mesmo ser capaz de falar, porque estaria morto".

Shion estava olhando para as mãos cobertas palas luvas de couro de Nezumi. Mesmo quando ele estava falando cruelmente, seus movimentos ainda eram graciosos. Shion queria imitá-lo se pudesse.

"O que?" Disse Nezumi. "Você está no espaço de novo."

"Ah... oh, me desculpe."

"Você realmente não tem noção do perigo, não é? Acho que até um gamo recém-nascido seria mais cauteloso do que você."

"Nezumi".

"Eu não quero ouvir isso", disse ele abruptamente. "Eu estou indo trabalhar."

"Será que as autoridades da cidade realmente têm a intenção de me prender?"

Nezumi parou.

"Este lugar é ao lado da Nº 6", Shion continuou. "Se eles realmente se propuseram para me pegar, não seria difícil para eles, de qualquer modo... não, não só a mim. Você também é um VC foragido, não é? E, ao contrário de mim, você saiu andando lá fora o tempo todo. Os satélites de rastreamento na Nº 6 são capazes de manter a vigilância detalhada em um local em sua órbita estacionária".

"Uh-huh, então?"

"Então, eu estou querendo saber o porquê. As autoridades não estão sérias em tentar nos pegar. Eles certamente não ficaram desesperados com isso, para dizer o mínimo."

Nezumi encolheu os ombros.

"Shion, de ambas as formas, boas e más, a cidade em que você nasceu não está interessada nas coisas fora dela. Para eles, tudo é completo dentro daquelas paredes. O Bloco Ocidental é a sua lata de lixo. Aqui, eles jogam fora os seus resíduos, suas pus. Se você é pus a eles, provavelmente acham que o Bloco Ocidental é um lugar apropriado para você. Eles apertaram o pus para fora de seu ferimento minúsculo e jogaram no lixo. Eles não vão voltar procurando por isso."

"Então, eu estaria seguro enquanto estivesse aqui."

"Quem sabe? Provavelmente as coisas não irão muito bem, mas há uma chance de você ficar seguro... Você disse que queria continuar a viver aqui, não disse? Talvez o seu sonho vá se realizar."

"Até a primavera, pelo menos."

Ele tinha uma moradia até a primavera. Uma vez que a primavera chegasse, e as vespas entrassem em seu período de atividade, o que aconteceria no interior da Cidade Santa? Será que as vespas parasitas varreriam a cidade com seu medo? Ele tinha que fazer algo antes que ficasse mais quente, antes que a primavera chegasse. Ele tinha que bolar um plano antes que terminasse o inverno.

"As vespas comedoras de gente finalmente se mostraram", disse Nezumi alegremente. "Você deve apenas sentar e assistir. Vai ser um palco interessante para ver o que acontece na Nº 6. Nossa vespa será a estrela do palco. Uma tragédia como nenhuma outra, ou uma comédia como nenhuma outra. Eu me pergunto o que vai ser?"

"Minha mãe ainda está dentro daquela cidade. Eu não posso parar e ficar olhando."

"O que, você está pensando em ir para casa?"

"Uma vez, antes da primavera chegar. Vou ver se consigo fazer um soro sanguíneo então."

"Usando o seu próprio sangue?"

"É. Seria impossível fazer um perfeito, claro, mas vale a pena tentar."

"Ei, você pode ser um gênio, mas o que você pode fazer sem frascos e seringas? Você com certeza não poderá obtê-los aqui."

"Eu vou tentar pedir a Rikiga-san. Talvez ele possa conseguir pelo menos o mínimo de equipamento de que vou precisar."

"O homem não vai fazer nada a menos que ele coloque dinheiro no bolso", Nezumi disse categoricamente. "Você pode ser o filho de uma garota que ele amava, mas tentar convencê-lo a fazer o trabalho de graça, e ele vai dar a volta tão rápido quanto qualquer coisa."

"Você acha?" Shion disse com dúvida. "Mas nós ainda vamos precisar de um soro. Sim, eu vou dizer a ele que se tudo der certo, ele poderá ganhar um pouco dinheiro com isso. Vou convencê-lo de algum mo..."

Os pés de Nezumi se moveram. Shion, com cadeira e tudo, saiu voando pelo chão. Uma pilha de livros caiu. Os ratos saíram correndo.

"O que foi isso?" Ele tentou se levantar. Antes que Shion pudesse se mover, o joelho de Nezumi estava em seu peito, e sua mão estava segurando seu ombro para baixo.

"Shion". Olhando para o rosto de Shion enquanto ele estava deitado de costas, Nezumi moveu os dedos do ombro Shion para sua garganta. Através do couro de suas luvas, Shion podia sentir a sensação de cinco dedos em seu pescoço. Eles começaram a apertar lentamente.

"Você não vai resistir?"

"Não. Não ia adiantar nada. E você concorda", Shion disse calmamente.

"Desiste muito facilmente, hein? Não se preocupa com a sua vida?"

"É claro que sim."

"Ou você está pensando que eu nunca te mataria?"

"Sim".

Nezumi sorriu. Seus olhos cinzentos, seus lábios finos e seu nariz bem definido formaram um sorriso bonito, mas cruel e impiedoso.

"Não pense muito bem de si mesmo", ele disse suavemente. Uma faca apareceu na mão de Nezumi, como se por magia. "Lembro-me de fazer algo assim há quatro anos também. Eu estava te segurando bem assim em sua cama."

"Eu também me lembro", disse Shion. "Naquela época, fui eu quem se lançou em direção a você. Você se esquivou como se fosse nada, e no momento seguinte, você estava me prendendo e eu não conseguia nem me mover."

Naquela noite tempestuosa. Lembrou-se do vento uivando fora de sua janela. Lembrou-se da sensação de corpo magro de Nezumi, febril e quente. Fazia quatro anos desde então.

Já faz quatro anos, e eu ainda não tenho nem a habilidade e nem o coração para empurrar este corpo de lado.

"Naquela época, eu estava segurando uma colher. E eu disse ― você se lembra? ― Que, se isso fosse uma faca, você estaria morto."

"Sim".

"Quer tentar?" Seus dedos se afastaram da garganta de Shion. Em seu lugar, a lâmina de uma faca foi empurrada sob seu queixo. Estava frio. Shion sentiu uma pontada de dor.

"Eu não vou deixar você fazer um soro sanguíneo", Nezumi sussurrou. "Eu não te salvei para que você pudesse sair por aí fazendo algo assim. Mantenha seu nariz fora das coisas que não são da sua conta. Fique escondido aqui até chegar a hora."

"Até chegar a hora? Quando é que vai ser?"

"Quando eu atacar Nº 6 com o seu golpe fatal, é nesse momento."

"Quando você atacar Nº 6..."

"É. Vou sufocá-la até o último suspiro."

O peso se levantou do peito de Shion. Nezumi guardou sua faca, e limpou o sorriso cruel de seu rosto. Ele tirou uma luva, e acariciou Shion sob o queixo com o dedo nu. Uma pequena mancha vermelha saiu na ponta de seu dedo.

"Este é o seu sangue. Nem pense em fazer algo tolo como um soro. Conserve isso para que se possa fazer um melhor uso."

"Nezumi". Shion agarrou seu pulso. "Por que você detesta tanto a Nº 6?"

Não houve resposta.

"O que aconteceu entre você e Nº 6? Por que você tem tanto ódio por ela?"

Nezumi exalou brevemente. Os músculos de seu pulso flexionaram.

"Shion, você ainda não entendeu que tipo de lugar é a Nº 6? Ela suga os nutrientes dos lugares ao seu redor, e enquanto eles crescem magros, ela só fica mais inchada. É uma horrível..."

"Cidade Parasita".

"É. Então você sabe o que eu estou falando. A humanidade está tendo mais e mais a intenção de expulsar organismos parasitas. O que eu estou fazendo é a mesma coisa. Vou exterminar e limpar a Nº 6 da face da terra. Uma vez que o lugar se for, as pessoas aqui não terão mais de viver em uma lata de lixo."

"Mas o que eu quero ouvir é a sua razão pessoal", Shion persistiu.

"Eu não tenho uma."

"Você está mentindo. Foi você quem me disse apenas para lutar por mim mesmo."

Nezumi ficou em silêncio e encolheu os ombros.

"Seria vingança?"

Silêncio. Nezumi nem mesmo se incomodou de tirar o pulso de Shion, e olhou para ele no momento em que eles ficaram cara-a-cara.

"Você quer se vingar de Nº 6? Se você quer... então o que aconteceu?"

"Eu não preciso te dizer."

"Eu quero ouvir isso." Shion cerrou os dedos ao redor do pulso de Nezumi. "Eu quero saber, Nezumi".

De repente, Nezumi começou a rir. Parecia uma risada que era genuinamente cheia de alegria.

"Nossa, você é como um pirralho fazendo uma birra. Certo, Shion."

"Mm-hmm?"

"Se eu te contar, você vai cooperar comigo?"

"Hein?"

"Quer me ajudar quando eu esfaquear o coração da cidade em que você nasceu e cresceu? Você me ajudaria a trazer destruição ― não a salvação ― para a cidade? Eu não preciso de qualquer soro sanguíneo. Se as vespas parasitas existem, então vou usá-las. quero causar estragos dentro da Nº 6. Quero ver as pessoas que sempre viveram em segurança caírem em pânico, fugirem em confusão, e se levarem a destruição. Esse é o tipo de coisa que eu tenho em mente. Você vai me ajudar, Shion?"

Shion balançou a cabeça de um lado para o outro. Ele baixou o olhar do par de olhos cinzentos.

"Eu não posso fazer isso."

Os dedos de Shion foram sacudidos.

"Você é sempre assim," Nezumi cuspiu. "Você sempre diz que quer saber, mas nunca está preparado para lidar com isso. Saber significa estar preparado para saber. Depois de descobrir a verdade, não há como voltar atrás. Você não pode voltar a ser da maneira que era, feliz e despreocupado. Porque você não pode entender isso? Shion, deixe-me fazer outra pergunta."

Nezumi agachou-se, e enganchou um dedo sob o queixo de Shion.

"Eu ou a Nº 6 - qual você escolhe?"

A respiração de Shion ficou presa na garganta. Ele sabia que seria confrontado com esta decisão um dia. Ele sentiu que ia acontecer.

O que ele deveria escolher? Se ele escolhesse um, perderia o outro. Ele não queria voltar para Nº 6. Nesse sentido, ele não tinha qualquer laço deixado por aquela cidade. Mas com as pessoas, era diferente. Sua mãe, e Safu, que estava em outra cidade agora, e os moradores da Cidade Perdida estavam todos dentro daquelas paredes. Dentro daquelas paredes tinha um cenário familiar e boas lembranças.

Se Nezumi nutria ódio da Nº 6 inteira, de seu povo, da paisagem, das memórias e de tudo mais, então ele não poderia simpatizar com aquele ódio.

Os dedos de Nezumi se retiraram de seu queixo.

"Você ama a Nº 6, e eu a odeio. É por isso que, um dia, vamos ser inimigos."

Foi um murmúrio. Um murmúrio que esfaqueou seu coração.

"Eu tenho a sensação de que vamos", Nezumi disse calmamente.

Ele havia dito algo semelhante antes. Naquela vez, também, Shion tinha dito que ele queria saber. Ele queria saber como Nezumi cresceu. Eu quero saber sobre você, tinha dito. E agora ele estava recebendo a mesma resposta que recebeu naquele momento. Nós vamos ser inimigos. Mas naquela época, ainda havia riso nos olhos de Nezumi, e sua voz era leve com tom de brincadeira. Mas agora, estava pesada. Uma escuridão pairava sobre a declaração, esta realidade pesada afundou ainda mais em Shion. Era a resposta honesta de Nezumi.

Algum dia, nós vamos ser inimigos.

Nezumi se levantou, e olhou para o relógio na parede.

"Merda, estou atrasado", disse ele a si mesmo. "O gerente provavelmente está irritado." Ele virou as costas para Shion. Sua voz e seus olhos se limparam de qualquer sombra de intenção homicida. Seus olhos cinzentos brilhavam, e seu tom de voz era casual.

"Nezumi".

"Sim, sim", disse Nezumi despreocupadamente. "Mamãe vai trabalhar agora. Cordeirinho, você estará no comando da casa enquanto eu estiver fora. Um lobo assustador vai passar por aqui, mas faça o que fizer, você não tem permissão para abrir a porta. Ok? "

"Não me subestime", Shion disse calmamente.

A expressão de Nezumi endureceu. Ele virou um pouco o rosto para trás, e franziu testa.

"O que você acabou de dizer?"

"Eu disse, não me subestime tanto."

"Você está ofendido porque eu te chamei de cordeirinho? Então é porque eu não posso lhe dar o papel da Chapeuzinho Vermelho? A bonita e inocente Chapeuzinho Vermelho. Alheia às dúvidas e ao cuidado, ela acaba sendo comida pelo lobo. Um papel perfeito para você. "

Eu não vou ser provocado. Você pode me condescender tudo o que você gosta. Mas tenho algo que preciso te dizer.

"Às vezes há coisas que eu posso ver e que você não pode."

"Eu não entendo o que você está dizendo", Nezumi disse sem rodeios. "Oh, espere, supõe-se ser a sua frase habitual, certo?"

"Você coloca tudo em dicotomias", Shion continuou, ignorando o comentário de Nezumi. "Você ama ou você odeia. Você é amigo ou inimigo. Fora da parede, ou dentro da parede. E você sempre diz que só se pode escolher um deles."

"É claro. Se eu estivesse na bifurcação da estrada perdendo tempo tentando decidir o que fazer, eu murcharia. Isso é o que covardes e traidores fazem. Você não pode fugir para sempre. Algum dia você vai ter de escolher um ou outro."

"Você não acha que poderia haver uma terceira via?"

"Terceira via?"

"Sim".

"Shion, o que você está dizendo é incompreensível", Nezumi disse irritado. "Que 'terceira via'?"

"Ao invés de destruir Nº 6, e se você a fizesse desaparecer? Você já pensou sobre isso?"

Nezumi colocou a mão em sua bochecha, e respirou fundo. Ele estava tentando não mostrar seu rosto, mas Shion podia dizer que ele estava agitado. Shion deu um passo adiante.

"Derrube as paredes. Livre-se delas."

"Você quer dizer as barreiras de Nº 6?"

"Sim. Sem suas paredes, Nº 6 em si não irá mais existir. Todo mundo poderá ir e vir livremente. Tire os muros e portões. Então não haverá nada dividindo Nº 6 e os Blocos um do outro, e..."

Nezumi se estourou em risadas. Ele se inclinou, segurando o estômago. Seu riso oco ecoou na sala do porão. Os ratos se amontoaram com medo e se enrolaram em bolas, tornando-os menores ainda.

"Isso tem tanta graça assim para você?" Shion disse tenso.

"É hilário. Isso é tão engraçado, que está me fazendo lacrimejar. Você não é apenas um pouco cabeça de vento, não é? Você também tem tendências ilusórias? Qual terceiro caminho, hein? São apenas palavras bonitas, um conto de fadas irreal."

"Nezumi, eu estava falando sério quando eu disse..."

"Não quero ouvir nada disso." Não havia resquícios de sorriso deixados em seu rosto quando Nezumi disse essas palavras. "Ainda não podemos fazer esse lugar desaparecer tão facilmente. Temos que deixá-lo continuar do jeito que está, deixe-o se vestir e encher a barriga com boa comida, deixe-o crescer gordo. Posso apenas imaginar o quão grande que deve sentir para cortar a barriga aberta com um golpe. Vou tirar todas as suas entranhas empanturradas e expô-la à luz. Eu não posso esperar. Sim, a primavera vai ser grande. Estou bastante animado."

Shion ergueu o queixo, e apertou as mãos em punhos em seus lados.

"Eu não me importo se você rir de mim, eu ainda acho que pode ser feito", disse ele em um tom desafiador. "Eu quero acreditar que é possível."

"Você está apenas procurando por uma rota de fuga", Nezumi atirou de volta. "Você está procurando uma maneira para evitar se machucar. Diga o que vai acontecer se você se livrar dos muros: você não vai obter algum tipo de céu. Vai ser um inferno. Tumulto, desordem, brigas, saques... você não sabe o quanto essas pessoas têm sido oprimidas até agora. Você não sabe quantas pessoas foram sacrificadas para que essa cidade estivesse onde ela está. Você não sabe, e é por isso que você pode inventar contos de fadas como esse. Shion, não pode ser feito. Não é como uma mistura de tintas, você não pode misturá-los e fazer-lhes um. Um vai ter que destruir o outro, essa é a única solução. Isso foi o que o destino definiu. Amor e ódio, amigos e inimigos, aqueles dentro e aqueles fora da parede... e você e eu. Eles nunca poderão ser como um, e nós também não."

"Você não sabe até tentar. De uma coisa..."

"De uma coisa?"

"...Eu sei, que não me tornarei seu inimigo. Nunca. Aconteça o que acontecer, mesmo se eu fosse morto, eu estaria do seu lado."

"Apenas palavras bonitas."

"É a minha decisão."

Era a sua vontade, e era inabalável. Para saber, você tinha de experimentar primeiro. Ele acreditava que as almas humanas, quando confrontadas com um dilema, acabariam por escolher a paz antes da guerra, canções e escrituras antes das armas e o amor antes do ódio. Não era uma fantasia. Era esperança. Ainda não abandonei a esperança. Eu quero encontrar uma estrada que você não pode ver, e apontá-la para você.

Nezumi desviou o olhar. Ele chutou a perna da cadeira, com a ponta do sapato.

"Fico fora do sério às vezes quando eu estou com você. Sua cabeça está cheia de teorias ingênuas e idealistas, e você fala como se fosse realmente sério."

"Você não me ouviria se eu não estivesse falando sério."

"Já basta", disse Nezumi secamente. "Cale-se". Ele começou a colocar de volta no lugar a cadeira que tinha chutado antes, e bateu levemente na almofada desbotada da poltrona. "Um teórico idealista de poltrona como você deveria ficar somente aqui o dia inteiro. Ignorar o mundo lá fora, e meditar sobre isto e aquilo tudo dentro da sua cabeça. Não fale mais comigo. Não me faça ficar mais irritado do que isso."

"Nezumi" Começou Shion.

"Eu não quero ouvir isso. Ouvir você me deixa doente. Doente e cansado. Droga, se eu soubesse que você era tão tagarela, eu nunca teria te trazido aqui em primeiro lugar."

"Eu não sou um tagarela. Eu na verdade nem gosto de falar muito com as pessoas".

"Então, mais uma razão para você calar a boca."

Mas eu não posso somente calar a boca. Eu não posso sentar aqui, me fechar em meu próprio mundo e me isolar do mundo exterior. Eu tenho que falar com você, ouvir a sua história, e buscar uma maneira para que possamos continuar vivendo juntos.

Eu não quero mais viver assim ― tapando meus ouvidos, mantendo minha boca fechada, fechando meus olhos. Nezumi, foi você quem fez me sentir assim. Coloque suas mãos longe de seus ouvidos, você disse, abra a sua boca, e deixe os seus olhos verem. Essas foram as suas palavras. E agora você está me dizendo para calar a boca? Você está me dizendo que não quer ouvir?

"Quem é o covarde agora?" Ele resmungou em voz alta sem pensar. A expressão de Nezumi endureceu.

"O que você disse?"

Isto irá acabar em uma luta? O pensamento passou rapidamente em um canto da sua mente. Então ele decidiu que não se importaria. Se lutassem, Nezumi o levaria facilmente para o chão. De quatro anos atrás até agora, isso não havia mudado. Shion não tinha nenhuma chance contra ele. Mas não se tratava de ganhar ou perder.

Ele queria cobrar de Nezumi com seu próprio corpo, com sua própria carne. Ele não se importaria se ele fosse empurrado para o chão, perfurado, ou preso para que ele não conseguisse respirar. Mesmo por um momento, ele queria colidir com Nezumi como iguais.

Mas Nezumi desviou seu olhar novamente. Ele foi para a porta, sem sequer olhar para Shion. Mas antes que a mão de Nezumi se fechasse em torno da maçaneta, apareceu um som abafado de arranhões do lado de fora. Algo estava arranhando a porta. Um momento depois, houve um latido. Nezumi e Shion se entreolharam.

"Soa como um cão."

Nezumi abriu a porta. Um grande cão marrom escuro estava sentado na soleira da porta, abanando o rabo. Ele tinha um embrulho branco em sua boca.

"Você é de Inukashi... aconteceu alguma coisa?" Nezumi pegou o pacote da boca do cão. Era uma carta. Nezumi a leu e os cantos de sua boca se relaxaram.

"Shion, há uma solicitação de emprego para você."

Shion correu os olhos pela carta que foi passada para ele. Estava quase ilegível. O papel em si era amarelado, velho e molhado com saliva de cachorro, e a caligrafia serpenteava em todo o lugar. Mas emocionou o coração de Shion mais do que qualquer outra carta que havia recebido.

ei Shion, com vontade de trabalhar? é um emprego de lavagem de cães. eu preciso de ajuda. se você quiser fazer isso, siga esse garoto. enquanto ele estiver com você, os Faxineiros não vão fazer nada engraçado. nos vemos mais tarde

Oh PS:esse garoto disse que você foi feito para lavar cães

"O que é lavagem de cães?"

"É como se lê. Você lava cães... os que Inukashi empresta para o aquecimento. São os grandes e tranquilos com pêlo longo. Deve haver cerca de vinte deles ao todo. Inukashi tem clientes que às vezes não pagam porque eles se queixam de que os cães são malcheirosos ou têm pulgas, por isso uma vez por semana em um dia ensolarado, tem que levá-los para uma lavagem. Então o que você vai fazer?"

"Eu vou, é claro", Shion brilhava. "Ele está me perguntando se eu quero ir trabalhar. É o meu primeiro emprego. Eu tenho um emprego agora."

"Você quer parar de transbordar?" Nezumi disse com uma careta. "Cara, você é realmente fácil de agradar, não é?"

"Nezumi, devo levar alguma coisa comigo? Você acha que eu vou precisar de sabão?"

"Você provavelmente não vai precisar de nada. Só cuidado com homens e mulheres que podem te puxar para os becos, eu acho. Se esse cachorro estiver contigo, creio que você não precisa se preocupar. Eu vou com você até metade do caminho."

"Falando nisso, eu quero ver o lugar onde você trabalha um dia. E ver você no palco."

"Não tenha muitas esperanças."

O cão latiu.

"Obrigado", Shion disse à ele. "Graças a você, eu fui capaz de conseguir o meu primeiro emprego. Eu sou todo seu, me leve até lá."

O cão abanou a cauda quando Shion se agachou para ele, e lambeu-lhe a garganta.

"Você está lambendo minha ferida para mim? Você é um bom garoto."

"Imbecil, ele só te lambeu porque sentiu cheiro de sangue".

"Eu não penso assim. Ele fez isso porque estava preocupado comigo. Mas qualquer que seja o motivo, ele é certamente melhor que você", Shion disse ironicamente.

"Não me compare com um vira-lata", disse Nezumi duramente. Ele parecia genuinamente descontente. A maneira como ele franziu os lábios trouxe de volta uma imagem fugaz de seu rosto há quatro anos. De alguma forma isso fez Shion ter vontade de rir, e por alguma razão, o fez se sentir nostálgico.

"O que?" disse Nezumi. "Do que você está rindo"

"Nada", Shion disse suavemente. "Só percebi que ainda tem uma parte infantil restando em você. Isso me fez meio que feliz."

"Hein?"

"Não importa. Certo, então", ele disse rapidamente, "mostre o caminho." Ele acariciou o cão de leve na parte de trás. Pegando a deixa, o cão subiu as escadas. Shion o seguiu e saiu do porão.

O sol brilhava em seus olhos. Vejamos... Um dia como este seria perfeito para lavar cachorros. Ele inclinou o rosto para o céu e respirou profundamente.

Parecia que a figura de Shion estava sendo sugado para a luz. Quando Nezumi se arrastava para fora do buraco escuro a luz sempre esfaqueava seus olhos. Ele não gostava de locais iluminados. Lugares cheios de luz sempre se transformavam facilmente em áreas de perigo. Ele sabia disso muito bem por experiência. Ele não podia ser como Shion e aceitar plenamente a luz sem hesitação.

Amigos e inimigos. Fora da parede e dentro da parede. Amor e ódio. Luz e escuridão.

Eu te disse, não disse? Eles nunca poderão se coexistir. Eu já lhe disse tantas vezes, e você ainda parece não entender.

Ele engoliu um suspiro que estava a meio caminho de sua garganta. O nó se afundou profundamente em seu peito novamente.

Quando Nezumi estava prestes a fechar a porta, um rato apareceu em seu pé.

"Você está de volta." Ele o pegou na mão. O rato parecia exausto. Seus olhos cor de uva estavam embaçados.

"Você trabalhou duro. Descanse." O rato balançou a cabeça e cuspiu uma cápsula na palma de Nezumi. Havia um pedaço de papel azul claro dentro.

"Uma resposta, hein." Se fosse, Shion iria se alegrar. Hoje deve ser um dia de sorte para cartas.

Por um instante, uma escuridão cruzou seu coração. Uma coisa negra. Não tinha forma era só escuridão. Incerteza, um mau pressentimento. Uma dor incômoda pulsava na parte de trás de sua cabeça.

Sua habilidade de sentir o cheiro de perigo iminente ou da calamidade era algo que ele tinha desde o nascimento. Graças a esta habilidade, ele foi capaz de escapar várias vezes, em alguns casos por um triz. O conteúdo desta cápsula carregava um mau cheiro. Cheirava como o primeiro passo em direção a algo que iria levá-lo à destruição...

Abriu a cápsula. O papel estava escrito com o que parecia ser a escrita de Karan.

Safu foi pega pela Secretaria de Segurança. Ajuda. -K

A dor piorou. Nezumi apertou os olhos fechados, e se apoiou pesadamente contra a porta.

Safu era aquela garota. Porque ela ­― ela não era uma elite? Assim como Shion... assim como Shion... o que significa ― ela foi levada no lugar dele? O segundo bode expiatório? Mas ele não sabia por que razão. Porque eles precisam de um sacrifício? Shion foi enquadrado como um assassino para encobrir o que a vespa parasita fez. Eles só deveriam precisar de um agressor. Então, por que ­― por que as autoridades querem outro sacrifício? Por que...

De qualquer maneira, se essa menina é o segundo sacrifício, ela não foi levada para a Secretaria de Segurança. Ela está indo para a Unidade Correcional. Um rato leva metade de um dia para voltar da Nº 6. Não há mais tempo. Ela provavelmente já foi presa na Unidade Correcional.

Por que eles estavam eliminando tão facilmente uma estudante da Classe Privilegiada que haviam avaliado, selecionado cuidadosamente, e que gastaram fundos consideráveis ​​e tempo para sustentar?

Por quê? Por que ― o que estava acontecendo? O que eles estão escondendo? O que está para acontecer?

Nezumi se levantou lentamente.

Ele não sabia. Era um mistério. Mas agora não era o momento de resolver enigmas. Ele tinha uma decisão importante a tomar.

O que fazer com isso?

Se ele mostrasse esta nota para Shion, ele provavelmente iria direto para a Unidade Correcional, mesmo sem saber que tipo de lugar que era. Ele iria, com a única intenção de resgatar Safu. Um tolo menino como ele nunca seria capaz de deixar a morte de um amigo ser ignorada. Se ele pudesse impedir, seria motivo suficiente para ele mergulhar de cabeça em um ninho de cobras venenosas. Ele estaria disposto a embarcar para a sua própria morte.

Ou eu ignoro isso?

Era muito fácil de fazer. Esta menina, Safu, não tinha nada a ver com Nezumi. Ela era uma estranha. Não era da sua conta o que deveria acontecer com ela. Ele poderia deixar as coisas acontecerem, e não teria importância. Nada mudaria.

Mas se Shion morresse, algo dentro dele iria mudar muito. Ele não queria ver Shion morrer. Ele provavelmente iria sofrer. Não Shion, mas ele Nezumi ia sofrer, de ter que viver e estar diante do cadáver de Shion. Ele estaria experimentando o mesmo sofrimento de novo, de ser assado vivo no inferno.

Você deve estar brincando comigo. Eu já tive o suficiente disso.

Ele não queria perdê-lo. Ele não queria experimentar o remorso de ter sido o único que viveu.

Eu não quero perdê-lo? Eu iria sofrer?

Ele estava estalando a língua de frustração.

Então foi neste ponto em que ele havia chegado. Ele quase se sentiu como se estivesse se enrolando no chão.

Ele havia resgatado Shion da Secretaria de Segurança para pagar a dívida que ele lhe devia. E era só isso. Ele nunca quis ter uma ligação com ele. Shion não era o único, ele apenas nunca quis se unir ou compartilhar seu coração com qualquer outra pessoa. Sentimentos por outros eram ainda mais perigosos que a luz. Ele não era de compartilhar uma conexão com alguém. Quer seja com um homem ou uma mulher, ele deveria apenas desenvolver relações que poderiam ser cortadas facilmente.

Nunca abra o seu coração para ninguém. Não acredite em ninguém, mas em si mesmo.

As últimas palavras da velha. Ele estava indo contra elas novamente.

Eu não quero perdê-lo. Eu iria sofrer.

Nezumi cuidadosamente dobrou novamente a nota de Karan e a enfiou dentro da cápsula.

Ele estava acostumado à perda, ele estava acostumado ao sofrimento. Não era? Mesmo se Shion morresse, talvez ele não gemesse em agonia sobre sua perda escancarada. Mesmo se fizesse, talvez fosse apenas por um curto tempo.

Ele poderia usar sua cama e seu chuveiro livremente. Não teria que se preocupar em fazer sopa suficiente. Não seria bombardeado incessantemente com perguntas. Não teria que abaixar um livro para escutar outras palavras, e dar uma resposta ao tentar conter sua irritação.

Ele iria voltar à sua vida normal. E seria isso. Ele deveria apenas passar a cápsula com a nota e tudo para Shion, e depois virar as costas para ele.

Por um capricho, Nezumi abriu a porta novamente.

À frente dele estava seu quarto, cheio de livros e móveis escassos. O porão, rodeado por paredes grossas, era um ninho adequado para um rato como ele.

O quarto parecia estéril e escuro, e maior que o habitual. Seu espaço escuro, frio e vazio penetrou em seus ossos.

Isso era o que estar ligado com alguém significava. Ele não seria mais capaz de viver sozinho. Era uma das muitas armadilhas artisticamente definidas que espreitavam em cada esquina de sua vida. E para esta, ele havia sido vítima.

Será que eu ainda tenho uma chance?

"Nezumi, o que há de errado?" Shion chamou a partir do topo da escada, que levava à entrada ao nível do solo. "O cão está me apressando. Apresse-se e suba logo." Sua figura sombria flutuou contra o brilho do meio-dia.

Será que eu ainda tenho uma chance? Shion, ainda serei capaz de viver sem você? Depois de uma certa quantidade de sofrimento, eu seria capaz de me separar da armadilha que você se tornou?

Eu seria capaz de me separar de você?

"Nezumi?" A voz de cima caiu apreensiva.

"Nada... estou indo." Ele fechou a porta e ouviu o cachorro latir. Havia luz. O farfalhar de uma brisa.

Nezumi enrolou o pano de super fibra ao redor de seu pescoço novamente, e subiu as escadas, passo a passo. Ele seguiu ascendente ao chão.

Leia o volume 3 - capítulo 1

Ver mais…

sábado, 1 de dezembro de 2012

[Novel] No. 6 Volume 2 Capítulo 4

Oi, eu sou Goku Aki. Alguém ainda se lembra de mim? Faz muito tempo… Eu acho que perdi leitores por essa demora toda. Mas de qualquer forma, escutem leiam os meus planos para o futuro.

No site da tradução para inglês, o 9th ave, sempre havia um post todo final de semana. E quando o capítulo era muito gande, era dividido em duas partes. Bem, também tenho a intenção de fazer isso. Estarei postando aqui um capítulo todo sábado, no mais tardar domingo, e no mais tardar ainda na segunda. E se estiver muito grande e eu não conseguir terminar todo o capítulo será dividido em dois.

Só mais um detallhe: neste capítulo o nome de Nezumi estará muitas vezes se correspondendo ao seu significado. Por isso enquanto estiver lendo se lembre de que o nome de Nezumi significa rato, assim algumas partes irão fazer sentido.

Passe o mouse sobre as palavras e textos sublinhados para ver informação

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Capítulo 4: O Anjo do Inferno

Eu o amo, o amo. Ele é uma pedra em volta ao meu pescoço - ele vai me levar para o fundo junto com ele. Mas eu amo essa minha pedra - eu não posso viver sem isso.
-Chekhov "O Jardim das Cerejeiras" Ato III [1]

A menina chegou quando Karan estava prestes a fechar as cortinas da loja.

"Senhora, têm bolinhos sobrando?" Ela era uma criança adorável com um rosto redondo, provavelmente não tinha dez anos ainda.

"Estamos sem o de queijo, mas se você gosta de bolinho de passas, temos um sobrando."

"Vou querer esse, por favor."

"Tudo bem, Lili. Só um segundo." Karan pegou o bolinho que sobrara da bandeja, e o colocou em um saco com duas rosquinhas.

"As rosquinhas são uma coisinha extra."

"Obrigada, senhora." Lili deixou cair algumas moedas de cobre na mão de Karan. Ela provavelmente manteve firmemente em sua mão por todo o seu caminho até aqui, pois, embora não tivesse sangue percorrendo as moedas, elas tinham o calor de um corpo humano.

Lili espiou dentro do saco, e seu rosto brilhou enquanto observava que dentro havia duas rosquinhas inteiras.

"Você é um dos meus clientes regulares, afinal de contas, Lili. Da próxima vez, vou assar alguns bolinhos de queijo extra para você."

"Senhora, você não vai fechar esta loja, vai?" Lili levantou o rosto do saco, e questionou Karan com uma expressão sombria.

"Jamais. Por que você acha isso?"

"Mamãe disse que você poderia fechar sua loja. Mas estou feliz que não vai." Um sorriso de alívio se espalhou pelo rosto redondo. Karan agachou-se e colocou os braços ao redor da pequena cintura da menina.

"Obrigada por se preocupar comigo, Lili."

Seu corpo macio, sua presença quente ― ela era tão pequena, mas já dava a Karan o incentivo definitivo.

"Mamãe e papai estavam preocupados", disse Lili. "Eles estavam dizendo, 'o que acontecerá se não pudermos comer os pães ou os bolos da padaria de novo?'. Porque sabe, a loja de bolo de frente da estação é ruim, e cara, e desprezível", disse ela irritada.

"É?"

"Sim. Porque no outro dia, tinha um imenso bolo branco em exposição, e era como um castelo de brinquedo. E eu e Ei... Ah, você sabe quem é Ei?"

"Não, eu não."

"Ele é meu amigo. E é realmente bom em soprar bolhas. Então Ei e eu ficamos olhando juntos, porque era muito bonito."

"Então vocês dois estavam olhando para a vitrine?"

"Sim. E o velho da loja começou a gritar para nós. Ele disse, não toquem no vidro com as mãos sujas. Nós estávamos só olhando. Nós nem mesmo estávamos tocando no vidro", Lili disse indignada.

"Isso é terrível."

"Então Ei gritou de volta, e disse: 'seu velho mesquinho estúpido!" e então eu gritei para ele também, e disse: 'seu velho careca estúpido!'. E então nós dois fugimos."

Karan se viu caindo na gargalhada. Havia um tempo desde que ela tinha gargalhado. Ela beijou Lili na bochecha.

"Eu não posso fazer nada tão grande quanto um castelo, mas para o seu aniversário, Lili, eu vou assar um ótimo bolo todo branco para você."

"Sério?"

"Sério. Certifique-se de compartilhar com Ei, também."

"Obrigada, senhora", disse Lili feliz. "Eu gosto de bolo de cereja".

Bolo de Cereja – Shion também gostava.

Lili acenou com a mão, e saiu da loja. Karan a viu recuar para trás até que derreteu no crepúsculo, depois baixou as cortinas. Ela afundou-se numa cadeira.

Depois de Shion tê-la deixado, ela achava difícil suportar quando a noite se fixava em cada dia. A noite a prendia na profunda decepção de que um dia havia passado sem Shion voltar para casa. O sentimento transformado em exaustão pesada fazia parecer problemático erguer um único dedo.

"Shion..."

Às vezes um murmúrio, às vezes mudo, às vezes como se em uma conversa, às vezes chegando perto de gritar, ela se perguntou quantas vezes chamara o nome de seu filho a cada dia.

Quando soube que a Secretaria de Segurança tinha tomado Shion em custódia sob a acusação de perturbação da ordem pública e assassinato, ela pensou que iria enlouquecer.

"Por favor, esteja ciente de que você nunca se encontrará com o suspeito novamente."

A noite em que ela havia recebido a notícia por um funcionário da Secretaria de Segurança, Karan teve uma premonição de que seu filho iria morrer. Certamente ela sabia mais do que ninguém que Shion nunca iria participar de um assassinato. Mas os sentimentos de desespero de uma mãe nunca iriam passar para a Secretaria – ela sabia disso muito bem. Na Nº 6, onde a taxa de criminalidade era quase zero por cento, não havia nenhum sistema judicial. Simplesmente sendo preso e levado sob custódia pela Secretaria de Segurança confirmava o estatuto culpado do suspeito. Declarar-se culpado ou não culpado não era permitido, nem levantar uma objeção formal.

Ele já foi preso na Instituição Correcional. Logo, como um VC de primeira classe, ele iria ser condenado por toda a vida, ou, em lei especial, ser condenado à pena de morte. As palavras oficiais da Secretaria de Segurança não eram nem exageradas nem retorcidas de alguma maneira – elas eram a pura verdade. Sempre foram. A próxima vez em que esse uniforme iria aparecer em sua porta seria quando a sentença fosse proferida a seu filho. Neste momento, Karan experimentou por si mesma como o desespero parecia. Todos os sons desapareceram em torno dela, e todas as cores desbotaram. Ela não podia sentir o cheiro nem nada. A escuridão era a única coisa que ela podia ver à sua frente. Era uma escuridão negra que nunca veria a luz do amanhecer. Era isto o que as pessoas chamavam de desespero?

Eu perdi tudo.

De repente, o rosto de um homem cruzou sua mente. Se eu pedir-lhe ajuda, algo poderia ser feito? Mas a fresta de luz que havia brilhado em seu coração logo piscou e desapareceu. Não... não há tempo. Ela nem sabia onde o homem estava agora. Ela não tinha tempo para procurá-lo e implorar pela vida de seu filho.

De repente, tomada de náuseas, Karan vomitou todo o conteúdo de seu estômago. Ela se rompeu em um suor e meio que se arrastou até o armazém, e caiu na cama de Shion. A maioria dos pertences de Shion havia sido confiscada como prova pela Secretaria de Segurança. Só posso morrer também, em um canto do armazém. Eu vou fechar meus olhos, e ir de encontro a ele.

Ao invés de viver esta vida brutal, eu posso escolher a paz da morte que virá após um curto sofrimento. Eu não sou forte o suficiente para continuar a viver sozinha na escuridão.

"Cheep-cheep!"

Ela pensou ter ouvido algo chiar em seu ouvido. Provavelmente era apenas sua imaginação. Pode não ser a minha imaginação. Mas não importa, eu já estou...

Algo mordeu o lóbulo de sua orelha. Uma dor surda correu por ela. Ela levantou o torso. Um pequeno rato correu para um canto da sala de armazenamento.

O que um rato está fazendo aqui?

Ela engoliu em seco. Tocou o lóbulo da orelha, um pouco de sangue saiu em seu dedo. A Cidade Perdida poderia ser na parte mais antiga da cidade, mas ainda assim eram raros os animais, com exceção dos animais de estimação, estarem correndo por ali. Ainda mais os ratos...

"Nezumi." Seu coração bateu forte.

Nezumi. Shion não murmurou aquela palavra mais de uma vez? Enquanto estava bebendo chocolate-quente, enquanto olhava para as árvores balançando com o vento, enquanto observava o céu à noite, ele havia murmurado essa palavra. Desde aquele dia, quando haviam sido expulsos de Chronos e se mudado para a Cidade Perdida por causa daquele incidente, era o dia em que Shion foi submetido a uma investigação e recebeu um aviso severo por ajudar um VC, considerado um criminoso violento na Nº 6. Ocultar e auxiliar na fuga de um VC normalmente é classificado como um crime grave, mas com relação à sua tenra idade de 12 e seu estado emocional, ele havia sido expulso com apenas a remoção de seus privilégios especiais.

Karan, por algum motivo, não tinha um grande apego a Chronos, nem achava a sua vida na Cidade Perdida dura. Embora os outros possam ter repreendido as ações de Shion como falta de senso comum, ela foi capaz de acreditar que havia algo nos sentimentos de Shion e crenças que o levaram a fazer o que fez. Apesar de a cidade ter dado-lhe tratamento preferencial como uma criança superdotada por causa de seu nível de inteligência, talvez tivesse começado a perceber que algum lugar dentro de seu filho escolheria a emoção acima do conhecimento, e escolheria um futuro que ele pudesse criar com sua própria vontade acima de um futuro que já estava prometido a ele. Foi por isso que ela escolheu não questioná-lo muito sobre esse incidente. Mas ela lhe perguntou uma vez sobre Nezumi.

"Então o que é esse Nezumi? Quem é ele?"

"Hum?"

"É o nome de alguém, não é?" Pensou isso por causa do jeito carinhoso que seu filho dizia aquela palavra. Nostalgicamente, amorosamente, às vezes tenso... até mesmo carregado de um tom de saudade. Ele definitivamente não usaria esse tom de voz para chamar um rato normal.

"Você teve seu coração quebrado por essa pessoa?"

"Nunca. O que você está dizendo, mamãe?"

"Bem, parecia isso."

"Não, não é assim. Você entendeu tudo errado."

Foi então que Shion se tornou extraordinariamente agitado, tingiu-se de vermelho, e fazia coisas como deixar cair a colher. Sim, lembrou-se agora. Nezumi...

Ela se levantou. Seu batimento cardíaco voltou ao normal, e seu corpo sentia mais leve. A esperança, embora ela não sabia por quê, cintilou dentro dela. Ela conseguia respirar, e a força de vontade para seguir em frente reavivou dentro dela novamente.

Um pequeno rato estava enrolado ao lado de uma caixa de farinha. Fez contato visual com Karan, e virou seu rosto em torno de um amplo círculo. Ele cuspiu uma cápsula fora de sua boca. Em seguida, desapareceu no fundo da sala de armazenamento. Havia uma nota dentro da cápsula.

Shion está seguro, não se preocupe. Escapou para o Bloco Oeste. Cuidado com a vigilância da Secretaria. Respostas por este rato. Marrom traz noticias de segurança, preto traz noticias de mudanças ou ocorrências anormais. –Nezumi

A luz que cintilara nela tornou-se uma chama acesa. Ela apertou a mão firmemente sobre a boca. Sentiu que iria chorar de alegria, se já não tivesse.

Ele está vivo. Meu filho está vivo. Eu poderei vê-lo novamente.

Karan respirou, e furtivamente olhou em volta.

Se a nota era verdadeira, e Shion havia escapado vivo para o Bloco Ocidental, então esta casa, provavelmente, estava sob vigilância pesada da Secretaria. Câmeras em orifícios. Escutas de áudio. Escutas com sinal sem fio. Ela não poderia agir de forma imprudente.

Ela se moveu mais para dentro no armazém. Ao lado de uma lata de geleia, ela rabiscou em um pedaço de papel enrolado. A palavra 'Bloco Ocidental' lhe trouxe à mente uma figura nebulosa. Qual era o seu nome? Ele trabalhou para o Folheto Latch... Ele era uma boa pessoa. Ela lembrou muito dele. Talvez ele pudesse... mas...

Tinha uma quantidade infinita de coisas que ela queria dizer a Shion.

Shion, permaneça vivo. Não importa o que você fizer, permaneça vivo. Sua mãe está bem. Enquanto você estiver vivo, vou ficar bem. Então, por favor, não morra.

Mas seria de nenhuma utilidade derramar seu coração agora.

"Cheep cheep!"

O pequeno rato apareceu a seus pés. Ele contraiu os bigodes como se a apressá-la. Ela não podia ficar em um local como este por muito tempo, especialmente porque ela não sabia onde as câmeras de vigilância estavam localizadas. Ela escreveu às pressas, enrolou o papel, e jogou-o no chão. Em um instante, o pequeno rato pegou em sua boca e desapareceu.

Se eu segui-lo, ele vai me levar até o Shion?

Foi um pensamento fugaz. Ela afastou isso de sua mente, e deu um passo adiante.

Vou esperar aqui, até que meu filho volte para mim. Eu vou ficar aqui, e esperar. É uma coisa fácil de fazer. Ele está vivo, e ele está no Bloco Ocidental. Se ele estiver vivo, eu posso esperar. A esperança não foi tirada de mim. Eu não perdi ainda.

Eu não perdi? Com quem eu estou lutando, afinal?

Karan sorriu levemente para si mesma, levantou o rosto, e saiu do armazém.

Fazia quase um mês desde então. Só uma vez, um pequeno rato apareceu. Era marrom, o que significava que Shion ainda estava seguro. Ela sentiu-se aliviada, mas ao mesmo tempo, angustiada. Da próxima vez, um rato preto poderia aparecer. Não havia nada que garantia a segurança de Shion.

Ela queria vê-lo novamente. Ultimamente, havia tido sonhos frequentes. Neles, Shion ainda era jovem, e ela ficava com medo se ele não estava segurando a mão dela. Eu não vou soltar essa mão. Mas não importa quão forte ela pensava assim, a mão do menino sempre escapava da dela quando ele começava a correr à sua frente.

"Shion, espere."

Não vá lá. É perigoso por lá, há um perigo horrível...

"Shion!"

Ela acordava com seu próprio grito. Estes tipos de manhã foram contínuas durante algum tempo. Ela gemia muitas vezes com tonturas, falta de ar e dores de cabeça. Mas ainda continuava a cozer, e continuava a abrir sua loja para pessoas como Lili.

Mesmo após a notícia da prisão de Shion ter sido transmitida, as atitudes das pessoas ao seu redor não haviam mudado.

O operário de fábrica que sempre parava por lá em seu caminho do trabalho para comprar pão de passas e um sanduíche para o almoço... O estudante universitário que vinha uma vez por semana para comprar um bolo de noz... A dona-de-casa que vinha a cada manhã para comprar um pouco de pão recém-assado... Todos se alegraram por Karan estar continuando o seu negócio.

"Sempre que eu como seus bolos, Senhora, me enche de um sentimento feliz. Eu não sei por que, mas isso só me faz sentir feliz."

"Não ser capaz de comer o seu pão irá tirar toda a diversão do meu dia. É uma das coisas que eu sempre espero, por isso não tire isso de mim, Karan-san."

"Você é uma padeira, não é? É o seu trabalho cozinhar, não importa o que aconteça. Estamos todos esperando, você sabe. Todas as manhãs, todos nós esperamos o aroma do pão no forno flutuar nas ruas."

Estas e tantas outras palavras incontáveis ​​apoiaram-na. Embora elas ainda estivessem longe de serem fortes, as palavras dos outros faziam sua alma se acalmar quando ameaçava entrar em colapso por causa da angústia de não ser capaz de confirmar o bem-estar de seu filho.

Ela havia tomado emprestado seus ombros para ficar de pé, apertar os dentes, e continuar a fazer pães e bolos.

Mas as noites ainda eram insuportáveis. Se as pessoas que passavam em sua loja a caminho de casa eram jovens, era muito mais insuportável. Fazia querer derramar seu coração.

Ela afundou-se numa cadeira e cobriu o rosto com as mãos.

"Cheep-cheep!"

Ela ergueu o rosto. Sob a vitrine de vidro, um pequeno rato estava mexendo a ponta do seu nariz. Era marrom.

"Você veio."

O rato olhou em volta, em seguida, cuspiu uma cápsula de sua boca. Ela sabia instintivamente o que estaria dentro da cápsula transparente.

Mãe me desculpe. Bem e vivo.

A escrita era ligeiramente inclinada e distintiva em grande estilo. Não era nada menos do que a mão de Shion.

Mãe. As palavras tornaram-se sua voz ecoando em seus ouvidos. Agora mesmo, neste momento, seu filho vivia. Ele estava vivo quando escreveu estas palavras à sua mãe. Ele havia escrito sobre este pequeno pedaço de papel, uma mensagem com apenas algumas palavras. Mas foi o suficiente para fazer Karan chorar, não conseguia parar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Ela traçou as palavras repetidas vezes com os dedos.

Shion estava, provavelmente, em uma situação terrível. Ele poderia muito bem estar sofrendo na incerteza. Mas não estava em desânimo total. Sua apertada, mas energética escrita expressou isso.

Mãe, eu estou bem. Eu não estou infeliz. Eu realmente não me desesperei.

Karan enxugou as lágrimas no avental. Ela prometeu ser sua última. A próxima vez que ela iria chorar seria quando ela estivesse segurando Shion novamente em seus braços. Até aquele dia, ela não choraria mais. Desespero não mais. Eu vou fazer pão todos os dias, vendê-los, gerir o meu dinheiro, limpar minha loja, colocar fora algumas flores, e continuar vivendo. Vou fazer o meu trabalho.

"A partir de amanhã, farei mais alguns tipos de bolinhos. Eu sei, eu vou fazer disso um dia especial para crianças."

Karan acenou para suas próprias palavras, e aproximou-se do pote de vidro para tirar um rolo salgado redondo. O pão, que foi polvilhado com queijo em pó, ainda estava perfumado e saboroso, mesmo depois de ter ficado frio. Com o seu preço acessível para vender, era uma escolha popular em sua padaria. Este foi o último que ela já havia feito hoje.

"Obrigada. Muito obrigada, Sr. Nezumi." Ela tirou um pedaço e jogou-o na frente do ratinho. O rato marrom escuro olhou cautelosamente para o pão um pouco, cheirou-o, e começou a mordiscá-lo com cautela.

"O seu dono é o Nezumi? Você vai dizer-lhe que estou muito, muito grata? E, por favor, diga-lhe para vir um dia para comer um pouco. Eu vou oferecer-lhe tanto pão quanto ele puder comer. E bastante pão para você também, é claro."

Escutou batidas na porta. Não era um som ruim, ao contrário, era tranquilo, quase hesitante. Mas o coração de Karan encolheu com medo.

Ah, não. Havia a possibilidade de que esta casa agora fosse parte da rede de vigilância da Secretaria. Ela estava tão preocupada com a nota de Shion que havia se esquecido completamente disso.

É a Secretaria de Segurança? Será que eles vieram para recolher essa carta...?

Não havia sistema de segurança completo aqui como em Chronos. Não havia alarme de segurança ou câmera, nem uma tranca automática com um sensor de reconhecimento embutido. Havia apenas uma porta com um vidro fino, cortinas que a cobriam, e uma tranca manual desatualizada. Um homem forte seria capaz de forçar o caminho facilmente.

Karan amassou a nota em uma bola na mão. Se o pior veio a piorar, ela estava preparada para aguentar. A batida continuou. Ela levantou-se lentamente e apertou sua mão em um punho fechado.

"Desculpe-me." Era a voz de uma mulher jovem. "Desculpe-me... tem alguém em casa?"

A voz sumiu debilmente. Por um instante, o rosto da estudante universitária que gostava de bolo de noz subiu-lhe à mente. Mas não era ela. Karan apertou o botão para abrir as cortinas.

Além dos vidros da porta estava uma menina magra. Ela usava um casaco cinza no comprimento da coxa que parecia derreter no crepúsculo. Karan lembrou-se do rosto que olhou para cima e sorriu para ela.

"Ora, é Safu." Karan apressadamente abriu a porta. A menina entrou na loja junto com a brisa da noite, e comentou sobre o aroma saboroso. Em seguida, ela abaixou a cabeça.

"Madame, tem sido um longo tempo."

"Tem. Quantos anos faz agora? Você cresceu tão bonita. Fiquei muito surpresa."

"Eu costumava ser muito confundida com um garoto", Safu sorriu, mostrando covinhas em ambas as faces. Seu sorriso era o mesmo de antes. Como Shion, ela foi colocada no topo do ranking por sua inteligência nos exames de crianças da cidade. Ela estava estudando com ele, como uma colega de classe na turma privilegiada até a idade de 12 anos. Karan se lembrou de ter ouvido que Safu havia perdido seus pais em uma idade jovem, e estava morando com a avó.

Depois que Karan e Shion haviam sido banidos de Chronos, Safu foi a colega que continuou a tratar Shion como ela tratava antes. Ela também havia vindo a esta loja uma vez. Dessa vez, seu rosto ainda abrigava um pouco de sua inocência juvenil.

Mas Safu agora, que havia desenrolado seu lenço rosa claro, tinha a pele sedosa e uma boca suave. Mostrava os indícios da mulher bonita que ela acabou por se tornar.

"Mas você não tinha feito intercâmbio para outra cidade? Eu me lembro de ter ouvido algo assim de Shion", disse Karan.

"Eu voltei. Minha avó faleceu. Recebi a notícia não muito tempo depois que eu cheguei lá, então eu peguei as malas e voltei logo."

"Sua avó? Ah, querida..."

Esta menina perdeu o último de seus parentes de sangue.

"Safu... Eu não sei o que dizer. Eu sinto muito."

Esta menina também havia experimentado o mesmo desespero. Havia experimentado a solidão de estar sozinha em uma interminável escuridão. E ela era tão jovem.

"Existe alguma coisa que eu posso fazer? Safu, há alguma maneira em que eu possa ajudar?"

"Sim." Safu ficou na frente de Karan, e a olhou diretamente nos olhos, não o fez com pesar. Ela não estava angustiada, ou gasta em exaustão. Tinha um olhar flexível e desafiador, o tipo de olhos que só se podia ter em sua infância.

"Eu vim aqui porque eu tenho um favor a pedir-lhe, Senhora".

"O que é?"

"Por favor, me diga onde Shion está."

Karan respirou e olhou de volta para os olhos de Safu.

"Por favor, me diga," Safu persistiu. "Ele está vivo, não está? Não está preso na Instituição Correcional. Ele está vivo, onde ele está?"

Seu tom de voz estava ansiosa por uma resposta. Karan cerrou o punho mais forte em torno do pequeno pedaço de papel amassado.

"Safu, você sabe sobre Shion, então?"

"Eu só sei o que foi transmitido pela Secretaria. O que significa que eu não sei de nada. É tudo mentira, não é?"

"Safu."

"O que eles disseram sobre Shion planejar um assassinato indiscriminado cegado pelo ódio, é uma enorme mentira. Shion não estava cego, e ele não abrigava nenhum rancor em relação a ninguém."

Karan puxou a menina pela mão e levou-a para a sala de armazenamento.

"Parece que esta sala não tem câmeras de vigilância ou dispositivos de gravação. Embora eu não tenha certeza de quão seguro é..."

Os olhos de Safu brilharam.

"Se você está sendo espionada, isso significa que Shion não foi capturado, certo? Ele escapou para algum lugar, não foi? Ele conseguiu escapar com segurança, e ele ainda está lá fora vivo... Senhora, você está certa disso, não é?"

"Por que você diz isso?"

"Porque você está tão calma em relação a isso... Apenas uma olhada em você, e eu poderia dizer. Você parecia magra e cansada, mas você não tinha desistido completamente. Não era o rosto de uma mãe que perdeu seu filho."

"Estou encantada, Safu. Você seria uma excelente detetive."

"Senhora, Shion está vivo, não está? Ele está bem, certo?"

Karan continuou a prender o olhar de Safu com os lábios firmemente fechados.

Havia uma possibilidade de que Safu fora solicitada pela Secretaria de vir aqui para descobrir o paradeiro de Shion? Karan pensou por um momento. A resposta foi não. Se a Secretaria realmente tivesse essa intenção, não havia necessidade de utilizar Safu. Seria fácil o bastante extrair informações de Karan utilizando um soro da verdade.

A Secretaria realmente perseguia seu filho a sério?

O pensamento de repente passou por sua mente. Todo esse tempo ela havia sido muito influenciada pela exaustão emocional e pela confusão que sequer pensou nisso, mas se a Secretaria realmente o perseguia com todo o empenho, um jovem rapaz como ele não seria difícil de colocar na prisão. Mesmo se Shion tivesse jogado seu cartão de identificação fora, os satélites de rastreamento seriam capazes de confirmar a sua localização. Enquanto ele não permanecesse eternamente no subsolo, era quase impossível escapar dos satélites altamente refinados de rastreamento.

"Senhora".

As mãos de Safu agarraram o braço de Karan.

"Shion está fora da Nº 6, não é?"

"Sim".

"Eu sabia... mas é a única possibilidade, não é? Dentro da cidade, a vigilância seria pesada por toda parte. Seria impossível se esconder..."

"Safu, qual é a resolução da imagem de satélites de rastreamento hoje em dia?"

"Os mais novos seriam de menos de cinquenta centímetros. Eu ouvi que é possível utilizar o zoom agora enviando comandos a partir do solo. O que significa que é possível obter uma imagem de uma pessoa no nível do solo com clareza."

A menina perspicaz tinha adivinhado o pensamento de Karan. Safu suspirou, e continuou falando.

"Se eles colocassem os dados de Shion no sistema, os satélites começariam a rastreá-lo automaticamente. Se ele está acima do solo, seria impossível para ele não ser encontrado."

"Então eu me pergunto se ele está no subsolo. Ou..."

Ou será que a sua aparência mudou muito em consideração aos dados gravados – seria mesmo possível?

"Senhora... Eu acho que enquanto Shion estiver fora da cidade, ele estará seguro."

"Seguro?" Karan repetiu as palavras de Safu em questão. Ela não entendia o que Safu queria dizer.

"Eu não posso dizer ao certo. É só um palpite que eu tenho... nunca nos ensinaram a colocar as coisas como sentimentos e palpites em palavras. Mas após passar um tempo fora da cidade, eu cheguei a sentir alguma coisa..."

As palavras de Safu tornaram-se estranhas e tropeças. Ela estava desesperadamente à procura de palavras que não descreviam uma teoria, mas algo que residia dentro de si.

"Ah... Eu sinto que esta cidade é bem fechada... Como se retraísse completamente em si, dissolvesse tudo em si... e que não lhe interessa nada fora dela."

"E você está falando sobre esta cidade, aqui."

"Sim. É o que eu sinto. Então, se Shion está fora da cidade, eu acho que a Secretaria o deixará sozinho, não importa se ele é o suspeito de um crime grave. Porém, se ele voltar para a cidade provavelmente iriam prendê-lo imediatamente."

"Isso significaria que Shion nunca poderia voltar, certo?"

"Enquanto a cidade em si não sofre algum tipo de mudança, eu sinto que é assim que continuará a ser."

"Isso é uma coisa cruel de dizer, Safu."

Safu balançou a cabeça, e agarrou o braço de Karan novamente.

"Senhora, onde está Shion?"

"No Bloco Ocidental. Isso é tudo que eu sei."

"Bloco Ocidental... Então é isso?" Um suspiro escapou dos lábios de Safu. Por um instante, seu olhar vagou no ar, em seguida ela baixou a cabeça profundamente em direção a Karan.

"Obrigada. Fico feliz que eu pude ver você, Senhora".

Desta vez, Karan foi quem agarrou o braço do Safu.

"Espere", disse ela. "O que vai fazer agora que você já sabe do paradeiro Shion?"

"Eu vou vê-lo."

Karan estava em perda de palavras. Ela não podia deixar ir o braço que estava segurando. A menina magra de 16 anos de idade ficou em silêncio diante dela.

"Safu... o que você está dizendo? Sabe que tipo de lugar é o Bloco Ocidental?"

"Não. Eu só ouvi dizer que é um lugar terrível. Mas eu ainda vou."

"Mas... mas... você diz isso agora. Pode ser que seja possível sair da cidade, mas para voltar..."

"Não importa para mim", disse Safu determinada. "Mesmo se eu nunca puder voltar aqui novamente, eu não vou me arrepender. Se Shion está no Bloco Ocidental, é para onde eu vou."

"Safu."

"Eu quero vê-lo. Eu quero ver Shion." Os olhos de Safu encheram de lágrimas. Ela mordeu o lábio.

Ela é uma garota forte, pensou Karan. Nessa idade, ela já aprendeu a conter as lágrimas.

Karan estendeu a mão e abraçou a menina.

"Obrigada, Safu."

"Senhora..."

"Sabe, eu sempre pensei que estava sozinha. Eu pensei que tinha que carregar esse fardo sozinha... mas você está comigo. Você também tem um lugar em seu coração para Shion... Muito obrigada."

"Eu... eu o amo", Safu disse, sua voz tremendo. "Do fundo do meu coração, eu sempre, sempre, amei somente ele."

"Uhum", Karan murmurou em aprovação.

"Eu não quero perdê-lo. Eu quero estar ao lado dele."

"Eu sei". Ela acariciou as costas de Safu.

No passado distante, eu disse a mesma coisa uma vez. Eu conheci um homem que me preocupava mais do que ninguém, e eu nunca quis perdê-lo. Eu gostaria de poder estar ao lado dele para sempre.

Mas eles haviam se separado. A única coisa que ele deixou em suas mãos era seu bebê recém-nascido. "Shion" era um nome que o homem tinha dado a seu filho. Era seu último e único presente a ela.

"As mulheres podem continuar a viver sem um homem, sabe."

Isso saiu como um sussurro. Talvez Safu não a ouviu falar, pois levantou o rosto e piscou para ela como se estivesse em dúvida. Quando ela piscou, uma única lágrima transbordou e rolou pelo seu rosto suave.

"Safu, posso lhe pedir para acreditar nele?"

"Hum?"

"Acredite nele. Ele virá para casa um dia. De alguma forma, eu só sei que ele virá. Ele não é tão fraco quanto parece."

"Eu sei disso, muito bem."

"Então, por favor, espere por ele", Karan implorou. "Tenha paciência e veja como a situação se desenrola. Eu não acho que seria bom para nós agir precipitadamente."

Os ombros de Safu levantaram e caíram enquanto ela respirava fundo.

"Senhora, posso te perguntar mais uma coisa?"

"Claro."

"Quem está com ele agora?"

Era uma pergunta inesperada. Alguém estava com Shion – invisível, mas estava ao seu lado, no entanto. Quem era?

"É Nezumi, pergunto-me?"

"Nezumi?"

"Sim, Nezumi. Essa é a única pessoa que eu posso imaginar."

"Eu me pergunto se ele é uma pessoa muito importante para Shion"

"Eu acho que sim. Talvez até mesmo o quanto você e eu somos para ele."

Safu sorriu, e anunciou que ela estava indo para casa.

"Espere, Safu", disse Karan urgentemente. "Prometa-me que não vai fazer nada precipitado. Você vai esperar até que ele chegue em casa, né? Certo?"

O sorriso da menina não desapareceu. Mas a luz em seus olhos era desafiador, e abrigou uma intenção clara.

"Eu não gosto de esperar."

"Safu..."

"Eu sempre fui assim. Eu não posso simplesmente ficar quieta e fazer nada enquanto espero. Esta manhã, fui fazer toda a papelada para conseguir cancelar o meu intercambio. Eu estou livre agora. Então eu estou indo. Vou para onde Shion estiver, não importa o que aconteça."

Karan balançou a cabeça. Sentia-se como se não importasse o que ela dissesse, seria de nenhuma utilidade agora. Mas ela tinha que parar Safu. Ela não podia deixá-la fazer uma escolha tola e andar direto para a teia de aranha.

"Safu, eu posso ser a mãe de Shion, porém eu não sei tudo sobre ele. Mas... mas sabe, eu sei que certamente ele não iria querer que você se colocasse em perigo apenas para vê-lo. Se alguma coisa acontecer com você por causa disso ele iria sofrer por toda sua vida. Este tanto, eu tenho certeza. Então, por favor..."

Safu ergueu o queixo. Ela apertou os lábios com firmeza.

"Isso não tem nada a ver com o que Shion sente."

"Hum?"

"Estou fazendo isso porque quero. Eu estou sendo egoísta, eu sei. Mas eu não posso simplesmente sentar e esperar por Shion neste estado. Eu quero tanto vê-lo. É por isso que eu estou indo... Eu não sou mãe, Senhora, não posso ser forte como você. Eu não posso continuar esperando. Não quero lamentar nada. Se... se por alguma chance, acontecer de ele nunca mais voltar... Eu vou ser a única a sofrer por toda a minha vida. Eu não quero isso. Eu não quero perdê-lo. "

"Mas Safu..." Karan disse as mesmas palavras em voz baixa, em seu coração.

Mas Safu, você sabe, as mulheres podem continuar a viver sem um homem. Vai ser doloroso, e sentirá como se o seu membro foi arrancado, mas você ainda será capaz de viver carregando essa ferida. Mesmo com esse fardo, um dia você será capaz de rir de novo. É por isso que, por favor, não coloque sua vida em risco por qualquer homem. Por favor, viva para seu próprio bem.

Como ela poderia responder aos sentimentos devotados, difíceis e ferozes desta garota? Como ela poderia convencê-la? Karan desajeitadamente, mas desesperadamente lutava para encontrar as palavras certas. Mas, Safu já estava virando o corpo para longe dela.

"Senhora, eu estou feliz por poder de vê-la. Adeus".

Não, Safu... Nunca diga palavras de despedida assim.

"Da próxima vez, venha antes do meio dia", Karan chamou. Ela falou as palavras para que chegassem à figura vestida de cinza que lhe dava as costas.

"Antes do meio dia?"

"Sim. Eu farei o pão de manhã cedo logo antes do meio dia. No início da manhã, eu asso principalmente pães, mas mais próximo ao meio-dia eu assarei pães doces e bolos. Vou assar três tipos de bolinhos. Venha e prove. Tenho um delicioso chá preto para acompanhar também."

Houve um momento de silêncio entre as duas.

"Eu sei", continuou Karan, "Safu, se você estiver disposta, você poderia me ajudar com esta loja? Eu vou te ensinar a fazer pão. Eu fiquei muito sozinha todo esse tempo. Se você viesse trabalhar aqui, eu ficaria tão feliz."

Ela sabia que estava sendo tola. Mas o que mais eu poderia ter dito? De que outra forma eu poderia distrair seu coração de Shion? Como posso protegê-la do perigo?

"Obrigada, Senhora. Eu amo bolinhos. Eu vou esperar pelo dia em que eu poderei prová-los."

A menina mais uma vez disse suas palavras de despedida, e saiu para as ruas noturnas. Karan silenciosamente a assistiu desaparecer. Seus braços e pernas estavam pesados. Um suspiro após o outro escapou de seus lábios.

Por que o amor de adolescentes é tão forte, impaciente e cegamente devoto? Meninas nesta idade não podem nem mesmo esperar pacientemente com fé. Seus sentimentos eram tão turbulentos, tão apaixonados com saudade, e tão dolorosos.

Eu havia me esquecido completamente como era se sentir assim.

Karan suspirou novamente.

Foi depois de ter trancado e estava prestes a desligar as luzes quando Karan notou o lenço rosa. O cachecol esquecido. Ela quase podia sentir a agitação de Safu.

Sim, Safu ainda estava hesitante em sua decisão. Se ela tivesse só um pouco de incerteza, ela poderia ser capaz de impedi-la de ir. Talvez ainda não fosse tão tarde.

Karan segurou o cachecol com ambas as mãos, e abriu a porta de sua loja.

Ela estava prestes a sair do beco para a rua principal, quando percebeu que tinha esquecido o cachecol. Era uma peça de malha costurada à mão por sua avó.

Agora, cachecóis e suéteres feitos à mão tinham voltado à moda, porque muitas pessoas acharam agradável a textura de lã sobre a pele. Mas na época em que Safu era pequena, ninguém usava cachecóis na Nº 6. A maioria das pessoas vestia roupa interior feita de fibras especiais, e todas as partes que tocavam a pele mantinham o nível da temperatura. As pessoas não precisavam vestir cachecóis, nem mesmo um suéter fino ou luvas.

A avó de Safu costurava como um hobby, e ela sempre fazia suéteres e cachecóis para a neta. Os colegas de classe de Safu sempre riam dela por causa disso. Mesmo todos estando na mesma classe de elite, as crianças sempre procuravam alguma diferença para rir dos outros e minimizá-los por isso. Os cachecóis e suéteres feitos à mão tornaram-se alvo de ridicularização.

"Uau, isso é do século passado?"

"Eu só havia visto isso em museus."

Ninguém sabia o que era ter consideração pelos outros, ou qualquer coisa sobre a alma ou a dignidade de uma pessoa. Isso porque nunca aprenderam nada sobre isso. Todos acreditavam que eram os escolhidos. Os escolhidos que eram autorizados a fazer qualquer coisa. As pessoas pertenciam a duas classes: os que eram eleitos e os que não eram. Além de todo o conhecimento teórico aprendido em salas de aula equipadas com as últimas tecnologias, foi tudo o que eles aprenderam.

Mas Shion era diferente. Ele sabia como tratar os outros com o mesmo respeito com o que ele era tratado, não se colocava nem acima nem abaixo dos outros. Ele era uma aberração. Isso era o que pensava Safu sobre ele.

Esta pessoa é diferente dos outros.

Ela não se lembrava quando, mas uma vez foi elogiada vestindo um suéter preto. O suéter tinha uma faixa rosa ao redor do peito e nas mangas.

"Ficou muito bem em você."

Safu estava olhando a programação na tela do seu desktop. Hesitou por alguém ter falado com ela de repente.

"Parece ser um suéter muito bom. Posso falar somente olhando que ele realmente aquece."

"O-obrigada".

"De nada. Além disso, eu aprendi algo novo."

"Hã?"

"Preto e rosa ficam muito bem juntos. Eu não fazia ideia disso."

Não era nem de longe uma conversa normal, era abrupta e unilateral. Mas, naquele momento, o semblante alegre do menino havia deixado uma marca na alma de Safu.

Que pessoa estranha...

Era uma pessoa estranha. Ele era diferente do resto. Por isso um dia, certamente iria por um caminho completamente diferente do nosso. Provavelmente, deixando o segundo pensamento de que tudo aquilo a que nos agarramos, tudo o que aprendemos é a coisa mais valiosa.

Ela havia tido esse sentimento antes.

Então, quando Shion passou nos exames de seleção para o Instituto Superior para superdotados, perdeu seu privilégio pouco tempo depois de ir para a Cidade Perdida. Safu não estava surpresa, sua premonição havia acabado de se tornar realidade. Não havia nada para ficar surpresa. Mas ela queria saber o porquê. Ela queria saber o significado por trás dos olhos que Shion punha com tanta frequência.

O que você está olhando? Quem você está procurando?

Não deixe seus olhos vagando tão longe. Olhe para mim. Eu estou bem na sua frente.

Eram palavras tão simples, mas ela nunca teve coragem de dizê-las. Eram sentimentos tão fortes, mas nunca mostraram sinal de que queriam sair. Dispositivos de comunicação foram progredindo em qualidade dia após dia, e o cartão para telefones celulares, os computadores portáteis e o papel eletrônico todos existiam e eram usados no mundo real, mas todos eles eram inúteis para ela. Eles não tinham a função de comunicar a sua alma com quem estava ao seu lado. Isso a enchia com ansiedade.

Ela estava frustrada consigo mesma por não saber todas as palavras de confissão e Shion nem mesmo tentava sentir os seus sentimentos. Mas, mesmo assim, ela manifestou sua alma pouco antes de partir em intercâmbio. Ela estava envergonhada de si mesma por ser tão direta, mas foi a única maneira que ela pôde dizer.

Eu te quero. Eu sempre te quis.

Palavras simples e diretas. Foi a melhor confissão que ela poderia formar. Mas foi rejeitada muito facilmente.

Eu sempre pensei em você como uma amiga.

Que resposta merecedora do prêmio Oscar. Foi tão ridícula que ela queria se dissolver em gargalhadas. Tão engraçada, que era quase dolorosa.

Você, cabeça de vento idiota, cresceu um pouco, não foi?

Ela o criticou em sua mente. Mas ainda foi capaz de lhe dizer o que ela queria dizer. Isso era bom o suficiente. Sua carga ficou uma pedra de moinho mais leve. Em dois anos, quando eu voltar do meu intercâmbio, eu vou começar de novo. Eu vou olhar para ele cara-a-cara novamente, quando eu estiver dois anos mais madura. Sua alma permanece inalterada. Ela ainda sofria de ânsia por ele.

Mas a maior parte de Shion ainda não tinha sido fixada por Safu. Sua alma tinha sido capturada por outra coisa, e ele havia se esquecido dela. Pela primeira vez, ela viu este rapaz calmo e sereno de poucas palavras ficando agitado bem diante de seus olhos.

As emoções de Shion haviam perdido seu equilíbrio e ele havia ficado agitado.

Ela havia tentado seguir o olhar de Shion, através da estação, no meio da multidão de pessoas, mas ela não foi capaz de ver nada. Quem quer que fosse a pessoa que ela não podia ver provavelmente era quem Shion estava procurando. E agora, essa pessoa provavelmente estava ao seu lado. Embora ela não tivesse provas, estava certa de que fosse verdade. Não adiantava pensar quem essa pessoa poderia ser. Ele era um personagem desconhecido.

É o Nezumi, eu imagino? Isso foi o que disse Karan.

Um rato?

Existiu. Existiu um Rato. Antes de eles se separarem na estação, um pequeno rato tinha subido no ombro de Shion.

"Nezumi". Ela tentou dizer isso em voz alta. Apenas a imagem de um rato de laboratório veio à mente. O vento soprava. Ela sentiu frio em torno do pescoço. Devo voltar para pegar meu cachecol? Logo quando ela estava prestes a mudar de direção, uma sombra escura apareceu diante dela.

"Você é a Safu-san?" Ela foi chamada pelo seu nome. Um arrepio correu fraco por sua espinha. Estes uniformes, eles eram policiais da Secretaria de Segurança.

Por que funcionários da Secretaria...?

"Safu-san, estou certo?" Um dos homens repetiu a pergunta. Era uma pergunta que ele já sabia a resposta.

"Sim".

"Posso ver sua carteira de identidade?" Depois de confirmar a carteira que Safu mostrou-lhes, os funcionários olharam um para o outro e assentiram. Seus tons de voz eram corteses, mas não eram amigáveis de qualquer forma. Era mecânico, sem calor humano. O frio piorou.

"Se você não se importa, nós gostaríamos que você viesse para a Secretaria de Segurança com a gente."

"O que?"

No momento em que havia preparado um pequeno grito, ela já havia sido ladeada por funcionários de ambos os lados e levada pelos braços.

"Por favor, entre no carro."

"Não, deixe-me ir!" Ela lutou. Eles não afrouxaram.

"Parem com isso! Para que vocês estão me levando? Digam-me o porquê", Safu exigiu.

"Chegará no inferno lá e você descobrirá em breve." Suas palavras se tornaram duras. Parecia que tinham a intenção de levá-la à força. Safu deixou seu corpo relaxar.

"Tudo bem. Por favor, só não usem a violência contra mim." Ela deu um passo à frente.

"Ah!"

Ela fingiu tropeçar, e deixou seu corpo cair para frente. As mãos dos homens afrouxaram. Ela se jogou e bateu no homem à sua direita. Ele cambaleou alguns passos. Safu girou em torno de sua bolsa, e a chicoteou no outro homem. Ela correu através do espaço entre eles.

Ela tinha que ir embora. Se ela fosse capturada, nunca seria capaz de ver Shion novamente.

O que significava ser escoltada à força pela Secretaria de Segurança... Ela sabia por instinto, não por lógica. Eu nunca vou ser capaz de vê-lo novamente.

Ela vira uma sombra no final do beco. Estava muito longe para dizer claramente, mas ela podia ver que ela estava segurando alguma coisa de cor clara em suas mãos.

Seu cachecol rosa bebê.

"Senhora".

Os pés dela pararam.

Senhora, não. Não venha nesta direção.

Ela tentou contornar, mas foi agarrada pelo ombro. Seu pulso foi torcido atrás das costas. Uma dor aguda. Sua boca foi coberta quando ela abriu para gritar.

Pare.

Os homens não falaram uma única palavra a mais. Em silêncio, eles procederam para capturar Safu. Um sentimento de terror correu por todo o seu corpo.

Eu estou com medo. Não. Socorro. Ela lutou para se libertar. Ouviu o som de seu casaco rasgando. Um botão se arrancou e rolou pela rua.

Socorro. Não... ajuda...

Ela sentiu um choque em seu pescoço. Seu corpo ficou dormente, e ela não podia se mover como ela queria.

"Não... ajude-me..." Ela estava perdendo a consciência. A cena da noite à sua diante ficou turva.

Shion.

Antes que ela pudesse murmurar o nome, Safu foi arrastada para a escuridão.

Karan viu as figuras sombrias enredadas em uma luta. Ela ouviu um pequeno grito que imediatamente reconheceu como a voz de Safu. Ela hesitou por um momento, e então começou a correr, mas suas pernas não se moveram quando ela quis e então tropeçou e caiu, e bateu o joelho fortemente no chão.

No momento em que Karan se levantou de novo, os homens estavam arrastando o corpo flácido de Safu para dentro de um carro. Era como um jogo de sombras silenciosas realizado em uma rua vazia. Mas o que se desenrolava à sua frente sob as lâmpadas uniformemente espaçadas da rua não era outra coisa senão a realidade. Os homens não estavam agindo em uma ficção... eles estavam realizando a sua missão atribuída sem uma única palavra.

A Secretaria de Segurança.

Sua respiração ficou presa na garganta. Encolhida na calçada, ela era incapaz de se mover. Não era a dor, mas o medo, que impedia os pés de dar um passo à frente.

Um dos homens olhou em sua direção. Ou pelo menos ela pensou que ele olhou. Seu corpo se contraiu no horror. Karan estava encolhida longe do local onde a luz brilhava, portanto, nesta escuridão seria difícil vê-la. Mas com óculos de visão noturna, a hora da noite não era de preocupação. Eles podiam ver na escuridão, como se fosse meio-dia. Eles provavelmente poderiam ver Karan claramente como cristal.

Ela estava apavorada.

Mas os homens rapidamente entraram no carro. A caminhonete preta silenciosamente deslizou para frente e desapareceu de vista de Karan em segundos. Karan levantou-se e apertou o cachecol nas mãos.

"Safu".

Ela disse seu nome em voz alta, e o terror real finalmente se definiu. Suas mãos tremiam. Ela cambaleou para casa e trancou a porta. O leve cheiro de pão a acalmou um pouco.

Safu havia sido levada pela Secretaria de Segurança. Havia sido quase como um sequestro.

Por quê? Por que ela tem de ser capturada? É por causa de Shion? Se for, então por que é Safu, e não eu? Por que na terra...

Ela não sabia. Ela não sabia de nada.

Cheep.

Um pequeno rato tirou a cabeça de debaixo da caixa de vidro. Ele estava segurando um pedaço de pão de queijo em suas patas.

"Nezumi".

Nezumi seria capaz de ajudá-la? Será que ele lhe traria a salvação? Será que ele tomaria a mão que ela estendia a ele?

Perto do pequeno animal com olhos cor de uva, Karan estendeu a palma da mão.

Leia o capítulo 5.

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  1. Chekhov "O Jardim das Cerejeiras" Ato 3. Traduzido do inglês. [Voltar]

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terça-feira, 3 de julho de 2012

Tight Rope OVA

Título: Tight Rope 
Título original: 
Título alternativo: 
Categoria: OVA
Gênero (oc.): romance
Gênero (or.): yaoi
Classificação indicativa: T
Lançamento: 2012
Diretor (a): 
Autor (a): 
Site Oficial:
Fansub:
Himitsu-Shudan

Sinopse:

Tight-Rope conta a história de Ryunosuke, um relutante herdeiro de uma família Yakuza e do seu amigo de infância, Noaki. A história também se concentra na relação amorosa entre os dois, que começou a florir nos seus tempos de escola e continua a se desenvolver lentamente.

Download:
SakuraAnimes
Yaoi Home

Assistir online:
Anitube - OVA 1
Anitube - OVA 2

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